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  • Uma visita incômoda ao passado

    Uma visita incômoda ao passado

    A série Adolescência, da Netflix, está no topo das paradas. É atualmente a produção mais vista na gigante do streaming no Brasil. Eu não sabia nada a respeito dela, até assistir a uma reportagem do Pedro Dória e da Cora Rónai, do Canal Meio, a respeito do tema. Na verdade, não vi o vídeo, apenas a chamada e me interessei.

    No mesmo dia, liguei a tv e fui direto ao título. São apenas 4 episódios, então decidi por terminar tudo em apenas uma sentada. Foi duro. É sobre um adolescente de 13 anos, suspeito de matar uma menina com quem estudava na escola, e as consequências geradas para ele, os amigos e a família.

    Jamie, personagem principal e suspeito de assassinato, com o pai na delegacia

    Todos os quatro episódios são gravados em plano-sequência – para quem não conhece o termo, plano-sequência é quando não há corte de edição. A câmera segue as personagens continuamente, sem que a cena se altere. É algo muito difícil de se alcançar tecnicamente. Em 4 episódios de 1 hora cada, então, é de uma minúcia impressionante.

    Mas sim, sobre a série… Ela te deixa engasgado com alguns temas: bullying, segurança digital, alienação parental e a simples e inquestionável maldade humana – que por incrível que pareça, consegue ser mais forte entre crianças e adolescentes do que entre adultos.

    Entre os 4 episódios, o terceiro para mim é o melhor de todos. Nele, uma jovem psicóloga tem uma sessão com o menino, suspeito de assassinato. Não vou revelar o conteúdo das conversas, mas é impressionante o quão fundo consegue-se ir dentro das fraquezas e inseguranças da criança, a ponto de se extrair todo o contexto e deixar a trama cristalina nas motivações. É cru. É tão humano, mas paradoxalmente, tão animalesco.

    O terceiro episódio vale por todos os outros. É fantástico.

    Eu gostei da série em geral, mas esse episódio vale mais do que todos os outros.

    Agora, o que mais me espanta, enquanto enxergo em retrospecto, é que poderia ter sido eu.

    Há duas décadas, com os mesmos 13 anos do protagonista, eu vivi a pior fase da minha vida. Nenhum desafio da vida adulta me proporcionou uma angústia tão recorrente e profunda quanto a rotina na sétima série do colégio.

    Eu não tinha muitos amigos na escola e calhou que a turminha com quem eu andava debandou para outras instituições de ensino. O bullying já existia, mas havia uma rede de apoio, na qual existia suporte e motivação, gente com quem andar no recreio e, portanto, conseguíamos construir uma redoma ao nosso redor, contra os valentões. Um grupo de desajustados lutando contra o sistema.

    Como eu disse, a rede de apoio se desfez. E, de repente, eu me encontrei sozinho para lidar com o problema.

    Vale ressaltar que à época eu estava visivelmente acima do peso e, provavelmente, fui o último de toda a série a atravessar a puberdade. Ou seja, com 13 anos eram todos uns semi-adultos intimidadores, enquanto eu era um gordinho com cara de criança, menor, mais fraco e com vozinha fina de taquara rachada.

    Para coroar, também usava aparelho fixo nos dentes, visto que minha arcada dentária, além de torta, contava também com protuberantes dentes incisivos, que me impediam de fechar os lábios por completo.

    Começaram por me chamar de Coelho, depois de Cenoura – por último, Noura. Um apelido nada carinhoso.

    E todos os dias da minha vida durante a sétima série, eu fui constantemente lembrado dos meus defeitos, da minha solidão e da falta de amigos.

    Todos os dias.

    Com terror psicológico, com abusos diários, com xingamentos, e em geral com uma covardia ímpar por parte dos meus algozes, que eram três ou quatro, mas um em especial. Todos maiores e mais fortes do que eu. Nenhum sinal de pena, nenhum sinal de remorso, ou de compaixão.

    Não sou capaz de reproduzir o discurso deles aqui, de tão imoral, baixo e violento.

    Eu chorava em segredo todos os dias.

    Chorava porque tinha medo do que poderiam fazer comigo e pela certeza da impunidade que os acompanhava.

    Então eu aguentei calado. Na verdade, eu tentava ser agradável com essas pessoas, ajudá-los quando necessitavam, oferecer uma mão nas matérias em que eu ia bem. Eu achava que poderia desconstruir o bullying, caso provasse minha utilidade, ou minha camaradagem. Eu nutria essa esperança em vão. Evidentemente, eles apenas se aproveitavam brevemente da minha ajuda enquanto ela os beneficiava, antes que voltassem ao massacre.

    Eu chegava em casa e me isolava. Passava horas no computador jogando Counter-Strike. Os únicos amigos que eu tinha aos 13 anos estavam on-line em outras partes do país.

    E eu tive sorte, essa é a verdade. Sim, tem uma questão da minha própria personalidade: razoável, ponderada, pouco belicista. Mas eu fui afortunado porque não estive exposto a nenhuma influência ruim, ninguém que me convencesse a fazer o mal. Um menino de 13 anos que se sente abandonado é altamente influenciável, ele precisa se sentir querido, achar que faz parte de algo.

    Hoje a situação na internet é muito mais perigosa que na minha época. Uma máquina de moer sentimentos e transformar crianças marginalizadas em pessoas perigosas, misóginas, sociopatas, assassinas em série.

    Neste campo, eu tive sorte.

    A injustificável maldade dos meus colegas de classe não se dissipava, e eu ia acumulando essa dor dentro de mim todos os dias. Até que um dia, em casa, após ser pressionado pela minha mãe – acho que por conta da minha queda de performance nas aulas, refletida no boletim -, eu explodi.

    Eu contei tudo.

    Avisada, a coordenação entrou em tom de repressão nas salas de aula, e a situação se amenizou por uma, talvez duas semanas. Mas depois voltou. E eu precisei lidar com isso até o final da sétima série.

    Na oitava, o pior dos babacas saiu de lá. E depois, perto dos 16 anos, eu já havia mudado, atravessado a puberdade e encontrado minha turma de amigos fora da escola, muitos dos quais me acompanham até hoje.

    Eu olho para trás e penso em como eu gostaria de ter me comportado de outra maneira diante daquela situação. Ter me imposto, batido de frente, mostrado agressividade.

    Mas não foi o caso. Eu ia como uma ovelha para o abate todos os dias. Rezando para que aquele dia fosse o último, que meu sofrimento acabasse. Eu perguntava aos céus por que, entre todas as pessoas, eu que precisava passar por aquela penitência.

    Hoje não tenho mais raiva deles. Mas tenho curiosidade para entender o motivo do ódio que nutriam por mim. Porque não pode ser explicado de outra forma. Era ódio e, ao meu ver, injustificável.

    Também não sou hipócrita a ponto de dizer que espero que eles estejam felizes, que tenham aprendido com a vida, e que está tudo no passado. Não. Deles não quero e nem espero nada.

    Eu herdei algumas características desse período. Alguma boas, outras más. Por exemplo, eu não me calo mais quando estou incomodado, e bati de frente quando me senti desrespeitado em diversas ocasiões, tenho uma tendência a proteger pessoas quando acho que são tratadas injustamente.

    Por outro lado, há um senso de autossabotagem, desconfiança nas pessoas e necessidade de aprovação externa que me acompanham até hoje – e acredito que estão de alguma forma ligados direta ou indiretamente a esse trauma.

    Apesar dos pesares, gosto de acreditar que me transformei em um ser humano decente.

    A série Adolescência trouxe à superfície uma série de questões que hibernavam em mim. E sabe o que é pior? Não acredito que exista remédio para o bullying, ou forma de contenção.

    As escolas continuarão a desenvolver palestras e seminários, mas nunca vão cortar o mal pela raíz. Sendo sincero, não sei nem quais mecanismos poderiam utilizar para isso. Seja por questão pedagógica ou financeira, a intervenção vai apenas até a página dois.

    Professores não têm controle total sobre a ação dos alunos, e também não se pode exigir que a pobre Dona Rosângela, professora de português de 58 anos, possa ter qualquer tipo de capacidade em amenizar uma situação dessas.

    A formação do indivíduo parte de casa. Não é papel da escola, mas os pais podem se esforçar em proteger e educar os filhos, e não cometer nenhum erro proposital. Só que a influência deles não alcança todos os campos. Crianças e adolescentes, como já disse antes, são particularmente cruéis. Criam as próprias castas e mecanismos de poder.

    Não sei muito bem como encerrar o texto.

    Sinto que apenas vomitei verborragicamente sentimentos reprimidos no meu peito. Acho que exigiu certa coragem em expôr um evento do qual eu gostaria de não ter lembrança alguma.

    Enfim, se você leu o relato inteiro, eu só gostaria de agradecê-lo pelo ombro amigo.

    Para fechar com um grau de positividade, é bom lembrar que por pior que a situação seja, tudo sempre passa.

    E pode não parecer na hora, mas a experiência nos fortalece para o futuro.

    Olhem por seus filhos, amigos e pessoas queridas sempre.