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  • O pedido de casamento perfeito

    O pedido de casamento perfeito

    Eu pedi minha mulher em casamento. Tem vídeo aqui, caso você queira ver.

    Precisamente na data do nosso terceiro aniversário de namoro. 

    Depois de quase três anos morando juntos (o que para mim já significa estar casado, por sinal). 

    Foi simples. Não teve pompa, champagne estourado, viagem pra ilha paradisíaca, ou jantar em restaurante com estrela Michelin. Nada disso.

    O casal de noivos

    Foi na sala de casa. Depois de um jantar que eu mesmo cozinhei. Na nossa intimidade, dentro da nossa rotina, em um espaço seguro.


    Sem serviço de garçom volante, sem ninguém ao redor, sem salva de palmas e olhares de transeuntes.

    Foi nosso. Só nosso. Único, lindo, do nosso jeito.

    E agora, depois de feito o pedido, é fácil falar assim. Não existe profissão mais tranquila do que engenheiro de obra pronta.

    Eu já estava pensando em como faria esse pedido há algum tempo. Amo tanto alguém que quero envolver até o Estado nessa relação, e agora? Como dizer isso de uma maneira memorável?

    Todas as ideias que eu tinha eram descartadas.

    Justamente porque não eram tão pomposas, tão maquiadas e instagramáveis. 

    Eu tive que lutar contra esse pensamento social – emburrecedor, por sinal – de que um pedido de casamento em Mykonos agrega mais valor do que um feito dentro do lar. Um conflito interno real, que resistia.

    Eu não quero pagar de moralista, ou diminuir quem se ajoelha frente à parceira nas Bahamas. Não é essa a ideia.

    Eu acho que é super legal, por sinal. 

    Eu só tive mesmo que lutar contra a ideia de que isso representaria um pedido de casamento perfeito para nós dois.

    Só porque a sociedade imprime que quanto mais dinheiro investido, maior a importância do pedido.

    E aí eu entendi que eu já estava preparado para assumir a responsabilidade de um matrimônio, de constituir uma família com alguém, e que perfeito mesmo é que o pedido seja feito, independente de quantos likes ele vai te gerar na rede social.

    Mas foi uma construção, ou melhor, uma reconstrução de pensamento que me levou a isso. Porque eu tenho essa mania de idealizar cenários a ponto de torná-los inalcançáveis. Inatingíveis. Sempre aumentando um ponto ao conto. Não basta ser em Bora Bora. Tem que ser lá, com show particular do Caetano Veloso, chegada de barco guiada por golfinhos e aliança entregue por um par de unicórnios albinos gêmeos.

    O irrealizável se transforma em procrastinação e ansiedade. É um modus operandi familiar e adoecido. 

    E burro, gente. Burro mesmo.

    E esse é o tipo de coisa que a gente só percebe depois. Quando se decide entregar o perfeito possível, que na verdade não era perfeito, até se tornar.

    Porque eu tenho certeza que meu pedido de casamento foi único, emocionante, memorável e que vai acompanhar as nossas lembranças para sempre. Vamos contar para filhos e netos, daquela vez que mamãe sentou na rede e papai mostrou um vídeo com uma serenata mal cantada – e vamos rir, nos emocionar.

    Porque o mais importante ali era o amor. É o amor. Que, diga-se, muitas vezes não está presente em pedidos transatlânticos, com tapetes vermelhos e um orçamento hollywoodiano.

    Não há nada mais extraordinário do que um homem comum construindo uma família comum.

  • Descultizando a Norma

    Descultizando a Norma

    Eu devia ter uns 19 anos, mais ou menos.

    Estava no meu primeiro estágio em uma redação de jornal – por sinal, a única vez que vivi esse jornalismo raíz de pauta, com hora pra fechar a edição e aquela adrenalina toda que só quem viveu conhece.

    Jornal popular, esportivo, com apelo às massas.

    Minha carinha saía assim no jornal àquela época. Faz tempo, viu?

    Começou um papo sobre gente que escrevia bem, que lá pelas tantas descambou para posts no Facebook. Algum colega disse que leu uma postagem repleta de erros de português.

    “Mas o texto era bom?” – eu perguntei.

    “Acabei de dizer que estava cheio de erros de português” – o interlocutor respondeu, meio sem paciência, como se apontasse uma obviedade.

    “Essa parte eu entendi, mas não acho que isso define a boa comunicação. Tem gente que não conseguiu estudar, mas que é capaz de se fazer entender”.

    A editora, minha chefe na ocasião, ouviu a conversa e resolveu se intrometer.

    “Se alguém publica algo repleto de erros, eu tenho preconceito e nem leio”.

    Grande parte das pessoas à minha volta concordaram. Eu, um mísero e sobrecarregado estagiário, me calei.

    Àquela época, ainda estavam frescas em minha memória as aulas de Teoria da Comunicação que tive na faculdade. Hoje já faz um tempinho, mas posso tentar explicar para vocês de uma maneira simplificada.

    No processo da comunicação humana, nós temos:

    1) O Transmissor – alguém que quer passar uma mensagem. No caso, a pessoa que escreveu o post repleto de erros de português.

    2) Ele se comunica com o Receptor, o destinatário (nesse contexto, a pessoa que leu o post).

    3) A mensagem é a informação que é transmitida, certo? Ela é enviada por meio de um código – nesse exemplo, o código escolhido para o post no Facebook foi a língua portuguesa escrita, mas poderiam ter sido gestos, braile, código morse, outro idioma, etc.

    Resumindo:

    Transmissor -> Mensagem codificada -> Receptor

    E quando a Comunicação funciona?

    Explicando mal e porcamente: quando o Receptor é capaz de entender e contextualizar a mensagem do Transmissor.

    Se eu falo algo em inglês e você não entende inglês, não há comunicação efetiva.

    Se eu falo português e você também, mas você é incapaz de absorver o contexto, não há comunicação efetiva. Por exemplo, nas minhas aulas de química inorgânica na escola, a professora falava português, mas para mim parecia grego.

    Beleza, mas por que eu dei essa volta toda? É uma pergunta honesta, mas você vai entender meu raciocínio agora.

    Leia essa frase aqui, por favor:

    “Oji eu cordei cuma sodade danada da muié, cadiquê eu amo ela muito”

    Você foi capaz de entender o que está escrito? Eu posso apostar que sim.

    Mesmo que oji se escreva hoje; que a contração “cuma” não exista na gramática; que ‘cordei’, ‘sodade’ e ‘muié’ sejam abreviações com “erros” ortográficos; que a palavra cadiquê seja substituída com “por causa de que” – que mesmo assim não está correto gramaticalmente.

    Por sinal, até o “eu amo ela” está ‘errado’. O correto seria “eu a amo”.

    Acho que você já entendeu o intuito desse teste. Eu queria demonstrar que a comunicação pode ser efetiva, mesmo que os famigerados “erros de português” estejam presentes.

    Agora me acompanha nesse salto de pensamento:

    Dizemos que alguém escreve certo quando respeita as normas gramaticais, também conhecida por norma culta.

    Epa, pera lá… norma CULTA?

    Você já parou pra refletir no significado desse adjetivo? Uma pessoa culta é alguém com estudo e instrução, certo?

    Mas pode significar mais que isso na verdade. Uma pessoa culta, de acordo com o dicionário, se traduz por alguém que alcançou um estágio superior de civilidade. Alguém que tem mais polimento, erudição, formalidade.

    O que se espera de uma pessoa culta, seguindo essa definição? Que ela prefira escutar Mozart ou Racionais? Vai assistir Ópera de Verdi ou a novela das oito?

    A norma culta não passa de uma elitização.

    Ela quer mesmo é excluir pessoas que não tiveram acesso à informação e instrução da conversa. Pior que isso, na verdade. Ela afirma que apenas pessoas ‘civilizadas’ podem sentar à mesa para debater, mas podem perceber que a ‘civilidade’ deriva de símbolos definidos por essa elite como superiores. Música clássica é ‘superior’ ao rap porque uma certa elite branca europeia disse assim. Para enaltecer o que era praticado por lá e rejeitar o que vem de “civilizações menores”.

    No caso do Brasil, Portugal virou e disse: esse aqui é o jeito correto de ser e se comportar – até de escrever e falar! E até hoje a gente reproduz um pensamento colonialista quando diminui alguém por não escrever ‘do jeito certo’.

    E eu não acho isso democrático.

    Semana passada eu terminei de ler “Latim em Pó”, livro do professor e linguista Caetano Galindo, que dá aulas na Universidade do Paraná e também é tradutor – ele traduziu uma versão de Ulysses de James Joyce (talvez o livro mais complexo da história) para o português e recebeu até prêmio por isso.

    Em “Latim em Pó”, o professor Galindo passeia pela formação e nuances da língua portuguesa e de outras derivadas do Latim, desafia a norma culta e assegura que a linguagem é um organismo vivo em constante transformação.

    A gente não escreve mais “vossa mercê”, “vosmecê”, porque esse pronome de tratamento evoluiu até chegarmos em “você”. A língua só existe e opera enquanto há pessoas para utilizá-la, e a utilização prevê mudanças, contrações, gírias.

    Se não fosse um organismo vivo, o Dicionário Oxford não elegeria uma nova palavra anualmente como a “Palavra do Ano”.

    Ah, e linguagem também é um conglomerado de palavras que importamos de outros lugares. Então antes de pensar em português correto, lembre-se dos seguintes vocábulos:

    Pipoca? Tupi.
    Carro? Celta.
    Azul? Persa.
    Guerras? Alemão.
    Cafuné? Quimbundo.
    Azar? Árabe.
    Cochilo? Banto.

    Leiam o livro de Caetano Galindo porque ele explica isso e muito mais melhor do que eu jamais serei capaz de fazer.

    Eu só quero passar a ideia de que norma culta é careta, elitista e que a comunicação efetiva é independente dela. O valor da mensagem não se perde enquanto você puder interpretar o contexto.

    E neologismo/regionalismo não serve só pra enaltecer a obra de Guimarães Rosa.


  • Avestruzes e Irresponsáveis

    Avestruzes e Irresponsáveis

    Como um bom millenial que se preze, só sou capaz de concluir tarefas domésticas quando acompanhado de um podcast. O escolhido para lavar a louça hoje foi Avestruz Master, da Rádio Novelo. Por sinal, recomendadíssimo, ainda que eu tenha escutado apenas o primeiro dos quatro episódios já publicados.

    O assunto é o surto das fazendas de avestruz no Brasil no fim do século XX. Para quem não sabe – incluindo eu duas horas atrás -, houve no Brasil um boom de investimento na maior ave do mundo, que provou-se uma gigantesca bolha econômica. Teve gente que viu milhões irem por água abaixo e outros que perderam o pouco que tinham ao arriscarem no animal, que por sinal, é o primeiro selecionável no Jogo do Bicho.

    Mas o texto não é sobre essa história, afinal, tenho certeza que a Rádio Novelo é capaz de contá-la muito melhor do que eu.

    É sobre uma frase específica que eu ouvi durante o podcast. Uma aspa creditada à Manuel Piveta Assunção que, atualmente, é o maior estrutiocultor do país – por sinal, estrutiocultor quer dizer criador de avestruz. Eu também aprendi isso hoje.

    Ele disse:

    “Eu sempre ouvi que empreendedorismo se mede pelo tamanho da irresponsabilidade”.

    Disse o cara que mexeu com uma imensidão de produtos dentro do mercado do agronegócio, foi pioneiro em plantar soja no Sul do país, e tem a maior criação de um bicho que faliu milhares de pessoas no país, mas que lhe rende gordas cifras.

    Por sinal, antes que você fique chocado, eu não sou um conhecedor da vida e obra de Manuel Piveta Assunção, também só fui ouvir falar dele pela primeira vez umas duas horas atrás.

    Mas mexeu comigo essa afirmação.

    Justamente porque ultimamente intensifiquei minha atuação empreendedora na área de produção de conteúdo – o que, à letra fria da lei da vida, me parece uma retumbante irresponsabilidade.

    É um alento perceber que alguém com tino para negócios compartilha da mesma visão de mundo que eu. Paixões também são irresponsáveis, não?

    Aliás, posso dizer que as melhores decisões que tomei nesses 33 anos até aqui foram aquelas que todos disseram: “Nossa, mas você é corajoso”, quando na verdade queriam dizer “Que burrice”.

    Quando mudei de cidade pela primeira vez foi assim. Quando mais tarde mudei de país foi assim. Quando retornei ao Brasil em definitivo porque encontrei o amor… adivinhem? Foi assim.

    E essa é a definição de empreender na minha visão. Arriscar por algo que vale a pena. A vida é curta demais para excesso de responsabilidade. Mesmo que ao final do dia eu não possa esconder minha cabeça debaixo da terra, como um avestruz faria.

  • A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan

    A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan

    Você já ouviu falar em Deja Vu?

    O livro A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan, me proporcionou um acontecimento único até aqui na minha vida.

    Foi um dos livros que eu adicionei à lista de leituras desejadas para o ano – e isso pode não soar muito relevante, mas as publicações que adentraram esse hall foram devidamente pesquisadas a respeito. Leram-se sinopses e mais sinopses. Não sou o tipo de pessoa que adiciona um livro à estante sem nenhuma informação a respeito dele.

    Tá, e por que essa informação é importante? Imagino que você esteja se perguntando…

    Porque apesar de atravessar essa minuciosa triagem, ainda na metade do primeiro capítulo, A Visita Cruel do Tempo, começou a transmitir uma angústia que eu não conseguia explicar bem. Era familiar demais, quase como se eu já tivesse passado por aquilo antes. Um deja vu literário. Eu precisei de mais um capítulo para que a ficha caísse por completo:

    Caramba, eu já li esse livro antes. Mas eu não me lembro.

    Mesmo depois da pesquisa e das sinopses, eu não percebi. Seria uma leitura repetida. E quando dei por mim, a angústia crescia a cada página que eu virava. Eu conheço essas pessoas, apesar de não conhecê-las mais. E a memória não se restaurava, ou seja, eu tinha certeza absoluta que já havia passado por aquela história antes, mas não tinha ideia de qual seria o desfecho.

    Devo confessar que isso impactou na minha boa vontade com o livro. Afinal, uma obra que eu não recordo de ler, nem mesmo sou capaz de lembrar do título na capa, invariavelmente só pode ter me proporcionado uma experiência apagável, indiferente, sem marcas.

    E sabe de uma coisa? Que bom que eu continuei lendo. Porque foi uma lição de humildade.

    Jennifer Egan vai e volta na cronologia dos personagens durante a obra, mas foi o capítulo 10 que me pegou de jeito. Até o décimo capítulo, sinto que imperava meu desprazer em reler algo varrido para as gavetas mais escusas da minha mente. Mas no capítulo 10, meus amigos. Ah, no capítulo 10…

    Foi como se eu estivesse lendo pela primeira vez – não o livro, mas na vida. Porque uma coisa é avançar linhas em uma página, outra é sentir profundamente a dor de alguém. E eu senti a dor de Rob no décimo capítulo. O único que conta a história dele. E eu entendi Rob. E eu empatizei com Rob, apesar de não compartilhar dos mesmos problemas que ele.

    Sabe, Rob me mostrou que mesmo um livro já lido, mesmo um esquecido, pode proporcionar algo belo.

    Se o título é A Visita Cruel do Tempo, não há como não traçar um paralelo com ideais heraclitianos de homens e rios que nunca são os mesmos. Dez anos depois, um Daniel diferente pegou um livro que já lera, mas a experiência transformou o livro em algo novo.

    Pelo menos do décimo capítulo em diante.

    É difícil para mim atribuir uma nota justa ao livro. Ele mexeu com meus sentimentos positivamente e negativamente. Mas se você quiser uma visão menos enviesada que a minha, talvez você deva considerar a dos jurados do Prêmio Pullitzer – que premiaram a obra em 2011.

    É sobre rock’n’roll, sobre definhar enquanto humanos, mas também sobre redenções. Talvez principalmente sobre redenções. Porque um momento da nossa existência não nos define, tampouco escolhas erradas, ou a profissão que escolhemos, os parceiros com quem vivemos, nada disso. O tempo é cruel e ele é o que nos transforma: e só pára quando o último ponteiro passa da meia-noite.

    Nota 4/5, mas leve com uma pitada de sal.

  • Pequena coreografia do Adeus, de Aline Bei

    Pequena coreografia do Adeus, de Aline Bei

    Há livros tristes, livros sobre abandono, livros que te fazem chorar, e que mostram a complexidade do ser humano – e de tudo que se convém chamar de relacionamento. Pequena coreografia do Adeus, de Aline Bei, engloba todas essas características.

    Júlia teve uma infância conturbada. Mãe violenta, pai omisso. Cresceu em um ambiente inseguro, carente de afeto e cumplicidade. Autoestima no chão, raiva que a faz explodir em certos momentos, uma batalha constante contra o abismo da solidão – que parece um bom lugar, quando comparado ao lugar comum dos abusos físicos e psicológicos.

    É um livro que escancara: há pessoas que simplesmente não nasceram para procriar, que se enxergam incapazes de amar a prole, e se colocam em constante competição com os rebentos.

    Ficamos assim com uma genitora narcisista a desenvolver traços psicóticos, e um pai que procura em outros muitos braços seus abraços, que pouco significam. Na orelha do livro pode se ler: “a mãe não suporta a ideia de ter sido abandonada pelo marido, enquanto o pai não suporta a ideia de ter sido casado”. Eu não poderia definir melhor.

    E no meio de um injusto turbilhão de sentimentos está a pequena Júlia, que apesar dos pesares, cresce para tornar-se uma adulta funcional e sonhadora. Infelizmente, o suporte nunca vem de casa, e ela precisa buscar fora do seio familiar personagens que a ajudam a se guiar por este mundo de mágoas.

    Aline Bei é autora de mão cheia. Capaz de traduzir dor e sofrimento, sem perder a leveza de suas linhas. No entanto, sinto que existe uma predisposição gigantesca a tudo poetizar, contudo, nem tudo é poético. Isso se reflete no texto.

    Porque você
    que ainda não leu
    Pequena Coreografia
    do ADEUS, não sabe.
    Mas o texto é todo disposto assim, em versos sem métrica.
    Para enfatizar
    a poesia disforme da história toda.
    E eu entendo. Juro.
    É o estilo da autora. A forma de
    colocar
    a dor no papel.
    Mas
    Em um ou outro momento
    Me tirou
    A paciência.

    Mesmo com a superpoetização, não se engane. É um livro que vale a pena ser lido. Mas vá preparado. É triste do início ao fim.

    Nota 4,5/5.

  • O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório

    O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório

    O que é racismo?

    Quando imaginamos um racista, pintamos na cabeça um quadro de algém da alt-right, de características arianas, caricato, vilanesco e muito distante do que acreditamos constituir um ser humano decente.

    Só que essa é a ponta do iceberg. O racismo, principalmente o que está tão entranhado à construção social brasileira, vai muito além de débeis fascistóides e gestos explícitos, como uma banana atirada a um jogador negro em estádios de futebol, ou um desafeto chamado de macaco.

    O carioca Jeferson Tenório prova repetidamente, durante o livro O Avesso da Pele, que o racismo se esconde sob camadas muito mais sutis, que se mascaram em atitudes cotidianas, no vocabulário, e em gestos que parecem inocentes à primeira vista, mas que carregam uma história de opressão por trás.

    Com personagens que transbordam frustração, raiva, impotência e dor, Tenório ilustra as variadas formas de racismo – desde a escancarada violência policial, até a mais velada das camadas -, enquanto conta uma história envolvente de tragédias familiares: assim mesmo, no plural.

    Uma narrativa em segunda pessoa, travestida de primeira pessoa. Ao avesso, como o título do livro. Uma memória, um diário, talvez uma carta de um menino endereçada aos pais. Tem sutileza mesmo nos momentos duros, que não são raros ao longo da leitura.

    O Avesso da Pele é simples e direto. Na melhor definição possível que você possa encontrar no dicionário. Os personagens criados são tão reais que você pode esbarrar com eles na esquina de casa. É fácil de gostar deles e mais fácil ainda entender e perdoar os defeitos que apresentam.

    Um livro que é político sem ser panfletário, sem utilizar de atalhos, sem repetir discursos. É a melhor leitura que tive em 2025 até o momento.

    Nota 5/5. Venda todas as suas coisas para comprar um exemplar, se preciso.

  • O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk

    O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk

    Eu adorei o conceito d’O Som do Rugido da Onça, de Micheliny Verunschk. A autora pernambucana conta uma história real sobre o colonialismo e os efeitos devastadores dele para os povos originários, sob um prisma de fantasia que me interessou bastante.

    Em uma obra repleta de lirismos e neologismos, Verunschk conta a epopéia de Iñe-e, menina da tribo Miranha, que ao lado de um rapaz da tribo rival Juri é traficada para a Alemanha, como “fruto” da expedição encabeçada pelos cientistas Carl Friedrich Martius e Johann Baptist von Sphinx.

    Iñe-e, rebatizada Isabella Miranha na Alemanha, a protagonista da obra


    A expedição existiu no mundo real, e após serem levados à Munique como presentes à Coroa, as crianças foram rebatizadas como Isabella e Johann e padeceram pouco depois, em decorrência do rigoroso inverno europeu – isso tudo está documentado.

    À autora, cabe ficcionalizar as “entrelinhas” da História.

    A personagem principal da trama, Iñe-e, é menina-onça, reconhecida pelo espírito de Tipai-uu, grande predadora divina das matas tupiniquins, que habita o folclore do povo Miranha. Meio felino, meio menina, a jovem tem dentro de si o furor da caçada e um rugido digno do topo da cadeia alimentar.

    A rainha das nossas matas, de quem Iñe-e herdou o sangue

    Por conta dessa coligação com o espírito, Iñe-e é temida pelo próprio pai, o líder da tribo, que para livrar-se da menina, a oferece como presente aos expedicionários.

    O livro ressalta a dor das crianças raptadas, em terrível viagem de barco de volta ao Velho Mundo. Separo aqui uma passagem:

    “A intenção era que a Europa pudesse admirar aquele deslumbre de vida que há muito perdera. A Europa era velha, muito velha, reumática, quiçá sofrendo alguma moléstia cancerosa. E aquilo que os cientistas traziam consigo era uma promessa, uma fonte de juventude, novíssima pedra filosofal”.

    Micheliny Verunsk trata também do desprezo dos colonizadores e da crueldade de Martius, recortado como o principal vilão da trama.

    Sphinx e Martius, os expedicionários colonizadores, que passaram pelo Brasil no séc XIX.


    Agora vamos aos pontos negativos – na minha opinião, claro.

    A narrativa principal se reveza com um conto contemporâneo, a respeito da jovem Josefa, que ao meu entender, tem como intenção criar um laço com Iñe-e e como sofremos até hoje consequências negativas herdadas do Brasil-Colônia. Mas senti uma desconexão entre as narrativas, sem que Josefa e a linha do tempo em que se introduz fossem plenamente desenvolvidas.

    Como escrito no segundo parágrafo, o texto faz uso de lirismos, neologismos e também de palavras pertencentes ao vocabulário Miranha. Não me agrada a posição de jurado de estilo, mas ao meu parecer, a extrapolação dos termos torna o livro levemente parnasiano em determinados momentos. É uma leitura que exige do leitor – não que isso seja ruim, mas senti certo exagero.

    O início da obra é super dinâmico e as páginas voam. O último terço, no entanto, é um tanto arrastado: tive a impressão que poderia ser mais curto. Não é um bom sinal para um livro com menos de 180 páginas.

    (Você está entrando na área de Spoiler!!!)

    O Som do Rugido da Onça se divide em três partes. O primeiro ato contextualiza as personagens e documenta o rapto das crianças. O segundo, traz mais detalhes sobre Josefa e a morte das crianças na Bavária.

    E o terceiro? Justamente sobre ele que eu gostaria de discutir.

    Na terça parte, Iñe-e morta enquanto criança, é reencarnada como onça, resgatada pela protetora Tipai-uu e rebatizada: Uaara-Iñe-e.

    E como “justiça de onça é no dente”, as jaguaras partem em redenção sangrenta, empilhando vítimas nas florestas brasileiras, antes de um passeio astral até a Alemanha, onde dão cabo também da vida do expedicionário Martius.

    É o momento mais etéreo da trama, acompanhado pela parte mais lírica do texto. Apesar de eu entender – e inclusive aprovar – a intenção da autora de criar um arco de vingança para a personagem, não fui envolto na narrativa tanto quanto gostaria.

    Agradeci quando a trajetória de Uaara-Iñe-e terminou, com um merecido descanso na maloca das onças.

    (Fim da área de Spoiler)

    Deixei para dizer isso no final para que não influenciasse opiniões, mas devo contá-los que o livro foi o grande vencedor do Prêmio Jabuti em 2022.

    Vale a leitura?

    Acho que sim, e consigo enxergar O Som do Rugido da Onça como currículo nas escolas.

    Confesso, no entanto, que as garras da felina não me envolveram por completo. 3.5 de 5.

  • A Pediatra, de Andrea Del Fuego

    A Pediatra, de Andrea Del Fuego


    Cecília é uma pediatra que odeia crianças

    O livro A Pediatra, de Andrea del Fuego me foi dicotômico.

    Por um lado, o estilo narrativo da autora, verborrágico, sem pausas ou respiros, me agradou profundamente. Quando dei por mim, estava a dançar com as palavras agitadamente, nada parecido com a sutileza de uma valsa – mais para aquele forró suado, com testas pingando, corpos encharcados, e sandálias arrastadas que levantam poeira vermelha. Dois seres melados e grudados, com os pés mutuamente pisados – eu e as palavras de del Fuego.

    Posta de lado toda a paixão fogosa do léxico, a história em si não me comoveu. Assim como a personagem principal. Não mesmo. Se a narrativa é forró improvisado, o enredo é um bolero chato e previsível.

    A protagonista é Cecília, uma pediatra que odeia crianças, ou seres humanos em geral, à exceção do pai (alô, Freud!). Foi difícil para mim estabelecer qualquer tipo de vínculo com a doutora, pois a amargura dela me soava apenas desinteressante. Ela tem vocação para sociopata e flerta com ser vilã, ou anti-heroína, mas lhe falta o carisma necessário para ocupar tais posições.

    Cecília acaba de atravessar um divórcio e vive um caso com o executivo Celso, outro água de salsicha, casado. A pediatra participa da equipe médica que traz ao mundo o primeiro filho de Celso, Bruninho. Posteriormente, o “romance” entre eles avança até que o primogênito é utilizado como bode expiatório para os encontros do casal.

    A pediatra desenvolve uma obsessão doentia, uma psicose envolvendo Bruninho, e passa a tratar o filho do “namorado” como se fosse seu. Já voltamos a isso.

    Pois vamos pausar um momento para falar sobre a trama secundária do livro, que ao meu ver é muito mais interessante do que a história principal. Ela envolve a empregada de Cecília, Deise, e o romance proibido com Robson – não entro em mais detalhes para evitar spoilers, mas o que posso dizer é que é uma narrativa muito mais envolvente e sedutiva do que a de Cecília. Infelizmente, a autora parece perder a vontade de contar o desfecho do caso e deixa o plot completamente em aberto. Uma pena.

    Sobre o final do livro, se você não quiser spoilers, pule as próximas linhas…

    (Começo do Spoiler)

    Conforme a história Cecília x Celso x Bruninho avança, ainda na metade do livro, eu só conseguia enxergar dois finais possíveis para consagrar a tragédia que se desenha:

    a) Bruninho morre;
    b) Cecília rapta Bruninho.

    Batata.

    Del Fuego quase mata a criança em um surto de cetoacidose diabética, para impotência de Cecília. No entanto, Bruninho sobrevive, para ser raptado pela pediatra no fim do livro.

    (Fim do Spoiler)

    Em resumo: a estética de Del Fuego me agradou e ficaria feliz em ler outros títulos da autora. Só não precisa convidar a pediatra Cecília…

    2.5 de 5.

  • Gente Ansiosa, de Fredrick Backman

    Gente Ansiosa, de Fredrick Backman

    A empatia em forma de livro, uma ficção assustadoramente real


    Há meses eu me encontrava consumido, exclusivamente, pela vontade de ler não-ficção. Não teci nenhum contraponto a essa vontade, e marginalizada deixei a fantasia indefinidamente. No entanto, por mais que se lute contra, dentro de mim habita um serzinho ávido por explorar a vastidão da capacidade de abstração, presente apenas nos livros ficcionais. Curiosamente, resolvi voltar ao inventado com uma história que, apesar da narrativa fantástica, transborda humanidade pelas linhas. 


    Gente Ansiosa. É impossível um millennial como eu não se sentir atraído pelo título da obra escrita pelo sueco Fredrik Backman. É um nome que te pega pelo pulso e incita a curiosidade, dado o mal-estar geracional. Afinal, gente ansiosa? Esse cara está escrevendo sobre mim! – aliás, talvez sobre qualquer pessoa na contemporaneidade. 

    Pesquisei rapidamente sobre o autor e descobri que ele também é o responsável por Um homem chamado Ove, que virou filme no país escandinavo, antes de ser adaptado pelos estadunidenses, que preferiram mudar o nome do protagonista para Um cara chamado Otto (também traduzido como “O pior vizinho do mundo”), estrelando ninguém menos que Tom Hanks. Eu assisti à versão yankee (sem saber a origem da trama) e gostei.

    Um homem chamado Ove/Otto

    Fui convencido e, portanto, Gente Ansiosa tornou-se a porta de entrada – ou melhor, de retorno – à ficção.

    Não sei muito bem como classificá-la. Talvez seja um romance policial, apesar de não ser muito bem um romance policial, só que fica difícil não chamar de romance policial um enredo que tem como palco um assalto a banco e uma situação de reféns presos dentro de um apartamento aberto para visitação. Na falha em colocar a obra em uma caixinha, deixo aqui a descrição do próprio Backman:

    “Esta história fala de muitas coisas, mas sobretudo de idiotas”. Mais uma vez me identifiquei, pois além de ansioso, também tenho vocação latente para a idiotice sete dias na semana. 

    Durante os primeiros parágrafos, fui obrigado a concordar com o autor. Todas as personagens: o assaltante, os oito reféns, os dois policiais, a “galera de Estocolmo”, todos um bando de idiotas. Mas conforme se avança na trama, percebe-se que na verdade a idiotice é arma da desinformação, pois enquanto o autor destrincha o perfil e as motivações de cada, estabelece contextos e propõe histórias densas e repletas de individualidade a cada ser envolvido ali, vão todos se desiotizando.

    De repente toma-se um susto, pois não resta um idiota sequer, apenas pessoas complexas, com bagagens emocionais que não conhecíamos. Por fim, é fácil de se relacionar com cada uma das personagens, viver das dores e compartilhar das razões que as levam a comportamentos esdrúxulos. Inclusive, isso acontece entre as próprias personagens, que criam laços perenes a partir das experiências compartilhadas.

    Talvez por conta da minha ansiedade, com medo do futuro, eu rezava para que as linhas de Gente Ansiosa jamais terminassem. É um relato comovente sobre o amor em múltiplas formas, sobre tristeza, sobre culpa, sobre depressão e a vida que se desembrulha tortuosa a cada dia que passa.

    É, sobretudo, um lembrete: não fazemos ideia da dor alheia. A empatia em forma de livro, uma ficção assustadoramente real.

    Por sinal, depois que concluí a leitura, descobri que lançaram uma série na Netflix baseada no livro em 2021. Não acho que eu vá assistir, mas fica a dica, caso você se interesse.

  • Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl.

    Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl.

    Sobreviventes e Desistentes: um paralelo entre prisioneiros de Auschwitz e minha avó Malvina.

    Não se deixe iludir pelo título do livro. Em Busca de Sentido passa muito longe dos manuais de autoajuda que hoje existem.

    Em um livre jogo de associação, a palavra “psicanálise” te faz lembrar de algum lugar no planeta Terra? Provavelmente a sala do terapeuta. Mas tem uma cidade no mundo que estabelece uma correlação direta com essa ciência: Viena. A capital austríaca tem dois produtos de tipo exportação: músicos clássicos e psicanalistas.

    Sigmund Freud, que está para a mente humana assim como Mozart está para os acordes do piano, é o nome mais famoso dessa corrente médica. Não a toa é reconhecido como o “Pai da Psicanálise”. Freud é Vienense, mas não é o único psicanalista expoente que veio de lá – assim como Mozart não é o único musicista.

    Alfred Adler, fundador da escola de psicologia individual, também deu origem à prática médica na capital europeia. A linha adleriana defende o conceito de que a personalidade é única, intransferível e indivisível. Diferente de Freud, Adler acredita que estudar o indivíduo e o que o constitui é o primeiro passo antes de entendê-lo no contexto social.

    Mais novo e menos conhecido que os dois nomes citados, o Dr. Viktor Frankl é o “criador” da Logoterapia, conhecida também como a terceira escola vienense de psicoterapia (freudiana e adleriana são as duas primeiras). A logoterapia é focada em utilizar a exploração do sentido de vida enquanto principal objetivo para o tratamento dos pacientes.

    Viktor Frankl, pai da logoterapia e autor de Em Busca de Sentido



    O Dr. Frankl (1905-1997) publicou mais de 30 livros ao longo de vasta trajetória profissional. Curiosamente, o mais famoso de todos, Em Busca de Sentido, foi concebido pelo autor com a intenção de ser publicado anonimamente – mas Frankl foi convencido do contrário por amigos próximos e assina a obra atemporal. Tive o “prazer” de ler a obra. Assim, entre aspas, pois é difícil categorizar como prazerosa uma leitura que trata da vida em campos de concentração. É um retrato autobiográfico sobre um prisioneiro que viveu os dias de horror nazista – no caso, o Dr. Frankl esteve em Auschwitz e outros quatro campos menores.

    Os assuntos Segunda Guerra Mundial e Holocausto exercem um fascínio lúgubre sobre mim desde que tenho idade para compreendê-los minimamente. Há pelo menos duas décadas sou ávido consumidor de obras – ficcionais ou não – que retratem o período. De “É isto um homem” de Primo Levi a “Maus” de Art Spiegelman; passando por pianistas, meninos de pijamas listrados, meninas que roubavam livros e listas de Schindler. Relatos crus e viscerais, ou realismo fantástico Tarantinesco.

    Auschwitz, o mais famoso campo de concentração nazista.

    Dito isso, estou vacinado – se é que há a possibilidade para tal – contra a dureza dos relatos da tão escabrosa história, tão recente história. Ainda assim, a experiência vivida nas palavras do Dr. Frankl foi absolutamente inédita. É o relato mais puro e avassalador que já li sobre o tema.

    O criador da logoterapia, à época um psicólogo no campo de concentração, é capaz de ilustrar com assertividade a vida sob o domínio nazista, sob a ótica do prisioneiro médio, sem recorrer a pontos fora da curva ou histórias notáveis e jornadas do heroi. Apenas como a cabeça de gente comum funcionava diante da perturbadora realidade desumanizante.

    Seguidamente me vi embasbacado pelas palavras de Viktor Frankl.

    Segundo ele, alguém que não viveu essa realidade é incapaz de compreender a violenta luta diária pela sobrevivência. A começar pela forçada seleção “darwinista” imposta pelos nazistas, tantas e tantas vezes. Ser escolhido para o lado bom significava trabalho escravo forçado. O lado ruim representava sair pela chaminé dos crematórios. Seleções eram corriqueiras, sendo necessário certo grau de bestialidade e brutalismo para consistentemente se ver selecionado para o “lado bom”. Uma dose de egoísmo até. Nas palavras de Frankl, os melhores e mais modestos não sobreviveram.

    Survival of the fittest.

    Seleção nazista durante a chegada de prisioneiros ao campo, já na saída dos trens.


    A tremenda luta por viver encontra, paradoxalmente, enorme apatia, diante do processo de despessoalização humana, quando nomes viram números tatuados no braço e as chicotadas não dóem tanto quanto o escárnio de quem as aplica.

    O tema do livro é fiel ao título – como a busca por sentido mantém a chama da vida acesa, mesmo diante de condições terríveis. Motivos variados encorajavam prisioneiros subnutridos a encarar as extremas dificuldades e comemorar cada dia sobrevivido: como formar uma família, ou encontrar a sua, separada pelos nazistas, ou escrever um livro, ou comer novamente o prato preferido cercado por amigos. A engrenagem seguia em movimento motivada pelo que se esperava do futuro. O porvir era o que separava os sobreviventes de quem se atirava às cercas eletrificadas para dar um basta ao sofrimento.

    O trecho que mais me impactou no livro foi a descrição dos desistentes. Quando o sentido deixava de fazer sentido, ou cessava de existir, era perceptível aos demais. O prisioneiro em questão não levantaria da cama – impossível movê-lo sob motivação ou ameaça -, então lá permanecia deitado, atônito, frequentemente sujo nas próprias necessidades, incólume ao que acontecia. Ainda deitado, acendia um cigarro, mercadoria valiosa no campo, que poderia ser trocada por comida. Nada mais importava. Segundo o Dr. Frankl, os desiludidos raramente sobreviviam por mais de 48 horas, já que cessara o motivo para permanecer na luta.

    Me senti profundamente tocado pelo relato dos desistentes, pois sinto que – guardadas as devidas proporções -, ele traduz bem os últimos dias da minha avó Malvina. A pessoa mais cosmopolita que eu conheci, capaz de conversar acerca de qualquer assunto, com qualquer pessoa. Vivaz, com senso de humor mordente, timing cômico impecável, rara inteligência. Ao final, completamente entregue, deprimida e desprovida de qualquer vontade. Não se importava mais com a higiene pessoal, passava os dias deitada e não se deleitava com qualquer atividade que não envolvesse comer ou dormir.

    Para a minha avó, em alguma parte da trajetória, o sentido se perdeu. Ela passou então a ser refém dentro do próprio corpo, enquanto aguardava o fim – só lhe faltou o cigarro.

    Eu e minha avó Malvina, antes da desistência.

    O livro do Dr. Frankl tem muitos outros momentos dignos de atenção, como a formação de “santos” e “porcos”, que no léxico do autor representam como a agrura extrema é capaz de escancarar o melhor e o pior das pessoas.

    A trajetória do próprio Viktor Frankl é interessantíssima, transferido múltiplas vezes, contando com a sorte em outras inúmeras ocasiões.

    A obra te deixa vidrado, engasgado, por vezes com lágrimas nos olhos. Pode necessitar de uma pequena pausa para respirar entre capítulos. Me ensinou um mundo em poucas páginas. O Dr. Frankl é um autor com o poder de entrar na sua mente e, no meu caso, cultivar um questionamento: teria sido eu um bom psicanalista?