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    O Grinch na Praça da Liberdade

    A Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, vista de cima durante as noites que antecedem o Natal. (Fonte: Jornal O TEMPO)


    São seis da tarde e as luzes de Natal estão acesas na Praça da Liberdade. Um festival de cores e percepções que reúne centenas de pessoas, com selfies natalinas, vendedores de algodão doce e famílias inteiras, repletas de sorrisos, crianças e uma esperança avassaladora no início de novos ciclos que essa data comumente representa. Nem mesmo o gigantesco Papai Noel inflável de péssimo gosto é capaz de dissipar tamanha energia.

    Há quem diga ser impossível chatear-se diante desse contexto: mamães passeando com carrinhos habitados por bebês Johnson e casais de idosos de mãos dadas. O que posso dizer? Para toda regra existe uma exceção – e no caso, a exceção era eu. Antes do cancelamento, não, eu não sou o Grinch. Não odeio o Natal e tampouco tudo que ele representa na Praça da Liberdade.

    O Grinch, famoso personagem do Dr.Seuss que desenvolve um plano para arruinar o Natal

    Minha chateação se limitou ao fato de que cheguei à Praça três horas antes, quando não havia sequer um pisca-pisca aceso e, certamente, nenhum vendedor de algodão doce. Lá estava eu, com uma mochila repleta de apetrechos de ginástica e um tapete de Yoga, em busca de um gramado para a prática de exercícios físicos. E lá também estavam os canteiros da Praça da Liberdade, normalmente povoados por pessoas com ideias similares às minhas: cangas, tapetes, exercícios, livros, sol da tarde. Só que todos os canteiros, sem exceção, estavam cerceados pelo vil metal dos gradis, que circundavam cada um deles. Em cada uma dessas estúpidas grades limitadoras de espaço, lia-se uma plaquinha com as palavras “Mark Eventos”, um telefone para contato e um QR Code, que assumi prontamente, levaria a um website qualquer, certamente mal diagramado, criado pelo sobrinho designer do Mark Eventos. O filho da puta do Mark Eventos, de quem nunca ouvi falar, me privou do contato com a grama na Praça da Liberdade e, portanto, detestei Mark Eventos um bom bocado, enquanto andava pelo perímetro em busca de um espacinho livre. Aí me dei conta que Mark Eventos estava ali por conta do Espetáculo das Luzes que mais tarde viria a gerar todas as belas cenas previamente descritas.

    Então, detestei o Espetáculo das Luzes na Praça da Liberdade já que, comicamente, fui privado por ele justamente da Liberdade de realizar meus exercícios em paz num dos canteiros.

    Sobravam duas opções:

    a) Ser consumido pela frustração e deixar o local;
    b) Entender que diante das limitações, eu ainda poderia estender o tapete de Yoga no concreto levemente quente, densamente imundo, para não perder a viagem.

    Então eu fui embora…

    Até parece, claro que não. Como tenho certa vocação para o ridículo, não foi uma decisão tão difícil assim, e pouco depois, um grupo de transeuntes curiosos se atentou para um rapaz executando saltos, flexões e pranchas isométricas – ou talvez nem tão isométricas assim – no concreto levemente quente, densamente imundo da Praça da Liberdade.

    O show durou cerca de uma hora, quando o rapaz em questão sacou uma toalhinha de dentro da mochila e enxugou o suor que descia pelo corpo inteiro. Vivo como os antigos romanos, com o ideal “Mente sã, corpo são”. Após o esforço físico, guardados os materiais de treino, da mesma mochila saiu um livro e um par de óculos de grau para vistas cansadas.

    Com o título Em Busca de Sentido, do Dr. Viktor Frankl, busquei um banco para realizar a segunda atividade planejada para a tarde. Não se engane com o título da obra, que parece algo encontrado na seção de autoajuda da livraria, algo que um coach quântico diria ter lido – mesmo sem ter. Não, o livro do Dr. Frankl, que por sinal merece um texto exclusivo, é um relato autobiográfico aliado à uma análise psicanalítica e psicossomática da vida de um prisioneiro e a rotina em um campo de concentração nazista. No caso, o Dr. Frankl esteve em Auschwitz, e também em outros campos menores.

    Devo dizer que toda literatura sobre a Segunda Guerra e o Holocausto me exerce grande fascínio, tendo consumido centenas (talvez milhares?) de obras a esse respeito. Nenhuma, contanto, tão contundente quanto a publicação do Dr. Frankl, já que ele tem um talento extraordinário para transformar o assombroso, o inimaginável e qualquer ato que embrulhe o estômago, em prosaico, simples e rotineiro. Situações irremediavelmente asquerosas vistas com olhos desfocados por quem toma aquilo por experiência diária.

    Dá para imaginar ser um livro que exige uma pausa ou outra para respirar entre cada capítulo. Em uma dessas pausas, talvez com lágrimas turvando a vista, ergui sofregamente a cabeça, que antes tão imersa no livro, me fez acordar para uma nova realidade.

    Uma realidade tomada por vendedores de algodão doce e famílias felizes, que apreciavam harmoniosamente os belos corredores de luz na Praça da Liberdade.

    Sabe quando o Grinch rouba os presentes de Natal do pequeno vilarejo de Whoville e os leva ao Monte Crumpit, onde ele habita em isolamento com o cachorrinho Max? O vilão do Dr. Seuss, então, prepara-se para saborear a grande vitória, já que conseguiu, enfim, arruinar o Natal – só para perceber que o Espírito Natalino e o sentimento de fraternidade seguia intocado no vilarejo, mesmo que o dia 25 tenha amanhecido sem presentes nas meias.

    Os moradores de Whoville se reúnem para celebrar o Natal

    Pois é, diante dos vendedores de algodão doce, famílias felizes e o Espetáculo das Luzes na Praça da Liberdade, é impossível detestar os gradis que pertencem ao Mark Eventos. Ou detestar o próprio Mark Eventos, ou o sobrinho designer, ou a falta de canteiros para a prática de exercícios.

    Em busca de sentido, lições são aprendidas. Acreditando em Papai Noel, ou não.