Eu adorei o conceito d’O Som do Rugido da Onça, de Micheliny Verunschk. A autora pernambucana conta uma história real sobre o colonialismo e os efeitos devastadores dele para os povos originários, sob um prisma de fantasia que me interessou bastante.
Em uma obra repleta de lirismos e neologismos, Verunschk conta a epopéia de Iñe-e, menina da tribo Miranha, que ao lado de um rapaz da tribo rival Juri é traficada para a Alemanha, como “fruto” da expedição encabeçada pelos cientistas Carl Friedrich Martius e Johann Baptist von Sphinx.

A expedição existiu no mundo real, e após serem levados à Munique como presentes à Coroa, as crianças foram rebatizadas como Isabella e Johann e padeceram pouco depois, em decorrência do rigoroso inverno europeu – isso tudo está documentado.
À autora, cabe ficcionalizar as “entrelinhas” da História.
A personagem principal da trama, Iñe-e, é menina-onça, reconhecida pelo espírito de Tipai-uu, grande predadora divina das matas tupiniquins, que habita o folclore do povo Miranha. Meio felino, meio menina, a jovem tem dentro de si o furor da caçada e um rugido digno do topo da cadeia alimentar.

Por conta dessa coligação com o espírito, Iñe-e é temida pelo próprio pai, o líder da tribo, que para livrar-se da menina, a oferece como presente aos expedicionários.
O livro ressalta a dor das crianças raptadas, em terrível viagem de barco de volta ao Velho Mundo. Separo aqui uma passagem:
“A intenção era que a Europa pudesse admirar aquele deslumbre de vida que há muito perdera. A Europa era velha, muito velha, reumática, quiçá sofrendo alguma moléstia cancerosa. E aquilo que os cientistas traziam consigo era uma promessa, uma fonte de juventude, novíssima pedra filosofal”.
Micheliny Verunsk trata também do desprezo dos colonizadores e da crueldade de Martius, recortado como o principal vilão da trama.

Agora vamos aos pontos negativos – na minha opinião, claro.
A narrativa principal se reveza com um conto contemporâneo, a respeito da jovem Josefa, que ao meu entender, tem como intenção criar um laço com Iñe-e e como sofremos até hoje consequências negativas herdadas do Brasil-Colônia. Mas senti uma desconexão entre as narrativas, sem que Josefa e a linha do tempo em que se introduz fossem plenamente desenvolvidas.
Como escrito no segundo parágrafo, o texto faz uso de lirismos, neologismos e também de palavras pertencentes ao vocabulário Miranha. Não me agrada a posição de jurado de estilo, mas ao meu parecer, a extrapolação dos termos torna o livro levemente parnasiano em determinados momentos. É uma leitura que exige do leitor – não que isso seja ruim, mas senti certo exagero.
O início da obra é super dinâmico e as páginas voam. O último terço, no entanto, é um tanto arrastado: tive a impressão que poderia ser mais curto. Não é um bom sinal para um livro com menos de 180 páginas.
(Você está entrando na área de Spoiler!!!)
O Som do Rugido da Onça se divide em três partes. O primeiro ato contextualiza as personagens e documenta o rapto das crianças. O segundo, traz mais detalhes sobre Josefa e a morte das crianças na Bavária.
E o terceiro? Justamente sobre ele que eu gostaria de discutir.
Na terça parte, Iñe-e morta enquanto criança, é reencarnada como onça, resgatada pela protetora Tipai-uu e rebatizada: Uaara-Iñe-e.
E como “justiça de onça é no dente”, as jaguaras partem em redenção sangrenta, empilhando vítimas nas florestas brasileiras, antes de um passeio astral até a Alemanha, onde dão cabo também da vida do expedicionário Martius.
É o momento mais etéreo da trama, acompanhado pela parte mais lírica do texto. Apesar de eu entender – e inclusive aprovar – a intenção da autora de criar um arco de vingança para a personagem, não fui envolto na narrativa tanto quanto gostaria.
Agradeci quando a trajetória de Uaara-Iñe-e terminou, com um merecido descanso na maloca das onças.
(Fim da área de Spoiler)
Deixei para dizer isso no final para que não influenciasse opiniões, mas devo contá-los que o livro foi o grande vencedor do Prêmio Jabuti em 2022.
Vale a leitura?
Acho que sim, e consigo enxergar O Som do Rugido da Onça como currículo nas escolas.
Confesso, no entanto, que as garras da felina não me envolveram por completo. 3.5 de 5.
