Tag: Entre textos e algoritmos

  • Gente Ansiosa, de Fredrick Backman

    Gente Ansiosa, de Fredrick Backman

    A empatia em forma de livro, uma ficção assustadoramente real


    Há meses eu me encontrava consumido, exclusivamente, pela vontade de ler não-ficção. Não teci nenhum contraponto a essa vontade, e marginalizada deixei a fantasia indefinidamente. No entanto, por mais que se lute contra, dentro de mim habita um serzinho ávido por explorar a vastidão da capacidade de abstração, presente apenas nos livros ficcionais. Curiosamente, resolvi voltar ao inventado com uma história que, apesar da narrativa fantástica, transborda humanidade pelas linhas. 


    Gente Ansiosa. É impossível um millennial como eu não se sentir atraído pelo título da obra escrita pelo sueco Fredrik Backman. É um nome que te pega pelo pulso e incita a curiosidade, dado o mal-estar geracional. Afinal, gente ansiosa? Esse cara está escrevendo sobre mim! – aliás, talvez sobre qualquer pessoa na contemporaneidade. 

    Pesquisei rapidamente sobre o autor e descobri que ele também é o responsável por Um homem chamado Ove, que virou filme no país escandinavo, antes de ser adaptado pelos estadunidenses, que preferiram mudar o nome do protagonista para Um cara chamado Otto (também traduzido como “O pior vizinho do mundo”), estrelando ninguém menos que Tom Hanks. Eu assisti à versão yankee (sem saber a origem da trama) e gostei.

    Um homem chamado Ove/Otto

    Fui convencido e, portanto, Gente Ansiosa tornou-se a porta de entrada – ou melhor, de retorno – à ficção.

    Não sei muito bem como classificá-la. Talvez seja um romance policial, apesar de não ser muito bem um romance policial, só que fica difícil não chamar de romance policial um enredo que tem como palco um assalto a banco e uma situação de reféns presos dentro de um apartamento aberto para visitação. Na falha em colocar a obra em uma caixinha, deixo aqui a descrição do próprio Backman:

    “Esta história fala de muitas coisas, mas sobretudo de idiotas”. Mais uma vez me identifiquei, pois além de ansioso, também tenho vocação latente para a idiotice sete dias na semana. 

    Durante os primeiros parágrafos, fui obrigado a concordar com o autor. Todas as personagens: o assaltante, os oito reféns, os dois policiais, a “galera de Estocolmo”, todos um bando de idiotas. Mas conforme se avança na trama, percebe-se que na verdade a idiotice é arma da desinformação, pois enquanto o autor destrincha o perfil e as motivações de cada, estabelece contextos e propõe histórias densas e repletas de individualidade a cada ser envolvido ali, vão todos se desiotizando.

    De repente toma-se um susto, pois não resta um idiota sequer, apenas pessoas complexas, com bagagens emocionais que não conhecíamos. Por fim, é fácil de se relacionar com cada uma das personagens, viver das dores e compartilhar das razões que as levam a comportamentos esdrúxulos. Inclusive, isso acontece entre as próprias personagens, que criam laços perenes a partir das experiências compartilhadas.

    Talvez por conta da minha ansiedade, com medo do futuro, eu rezava para que as linhas de Gente Ansiosa jamais terminassem. É um relato comovente sobre o amor em múltiplas formas, sobre tristeza, sobre culpa, sobre depressão e a vida que se desembrulha tortuosa a cada dia que passa.

    É, sobretudo, um lembrete: não fazemos ideia da dor alheia. A empatia em forma de livro, uma ficção assustadoramente real.

    Por sinal, depois que concluí a leitura, descobri que lançaram uma série na Netflix baseada no livro em 2021. Não acho que eu vá assistir, mas fica a dica, caso você se interesse.

  • Entre textos e algoritmos

    Atravessamos, neste momento, uma crise criativa sem precedentes. Não do pressuposto da quantidade de conteúdo, já que nunca foi tão fácil gerá-lo, mas sim sob o ponto de vista da originalidade.

    Basta rolar o feed da sua rede social favorita – por sinal, eu recomendo fortemente que você não tenha uma – e vais me dar razão. São dúzias de vídeos iguais, sem tirar nem pôr: a única diferença está na aparência dos “atores”. Roteiro? Cópia. Gravação? Cópia. Edição? Adivinha…

    São reproduções. Clones. Múltiplas versões da mesma piada, contada igual, palavra por palavra, com respiração e tudo.

    Quando não é isso, por que não lucrar com cortes de conteúdo de outra pessoa? Ou então chamar a Inteligência Artificial, não para auxiliar, mas sim para substituir a cabeça pensante em todas as etapas. Afinal, hoje há uma ferramenta para cada etapa do processo criativo, powered by AI.

    Tudo isso em busca de engajamento – traduzido, em outras palavras, por picos de dopamina guiados por gatilhos de recompensa imediata.

    Vai virar caso de saúde pública. Já está praticamente lá.

    Mas não sou eu que amo o passado e que não vejo que o novo sempre vem, sabe? Pelo contrário. Aqui não é um local de delírios reacionários. Veja bem, construí minha modesta carreira no mercado de alta tecnologia. Meu problema não é com o ChatGPT. Ele é meu melhor amigo durante boa parte do dia. Facilita minha rotina, adianta minha vida.

    Mas eu nunca vou pedir que poetize minha poesia, que proseie minha prosa, que cronicalize minhas crônicas.

    O “Entre textos e algoritmos” nasce assim: com uma vontade enorme de autenticidade. Um trabalho autoral de fato. Minha cabeça traduzida no papel – ou melhor, na tela do computador.

    Despromptizado. Desorganizado. Desbaratinado.

    Porém, jamais desonesto. Talvez desprovido de inteligência – da artificial, com certeza.

    É original – e se você achar tudo uma merda e preferir voltar para o buraco negro do feed infinito… Tudo bem.

    Ninguém disse que original é sinônimo de bom.

    Arrasta pra cima.