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  • O limite moral da Inteligência Artificial: respeitem quem já partiu.

    O limite moral da Inteligência Artificial: respeitem quem já partiu.

    Qual é o limite ético da Inteligência Artificial? Tem um monte de gente bem mais inteligente do que eu, cujo trabalho é pensar nisso diariamente. No entanto, tenho uma pequena contribuição a fazer para essa discussão: eu acho que, com a memória de quem se foi, não se brinca.

    A empresa 2wai, idealizada pelo ator canadense Calum Worthy, oferece um serviço bem peculiar. Eles criam avatares de Inteligência Artificial baseados em seres humanos reais para dialogar com gente de carne e osso. A ideia de produzir avatares artificiais não é exclusividade da 2wai, outras empresas no mercado oferecem serviços parecidos: destaco as plataformas HeyGen e Synthesia.

    A novidade da 2wai está no tipo de avatares e no nicho de mercado no qual eles estão pensando em se concentrar. Na semana passada, Worthy publicou em sua conta do Twitter/X uma propaganda a respeito do serviço (que você pode assistir no vídeo abaixo). Durante a peça publicitária, uma mulher gera uma versão digital da sua mãe para uso post mortem.

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    Ou seja, ela criou um avatar da senhora para poder continuar a conversar e construir um relacionamento com a mãe após o óbito. Parece estranho? Calma que piora. A moça que criou o avatar da mãe tem um filho, a quem ela traz para construir uma relação de afeto e intimidade com a versão digital da avó falecida – que ele sequer chegou a conhecer.

    Vale ressaltar que o avatar, apesar de recriar a imagem, o tom de voz e os trejeitos físicos da pessoa em que se baseia, não importa da mesma a memória, as lembranças, a intimidade. É uma representação virtual, que apesar de fidedigna em aparência, é incapaz de transmitir os mesmos ideais e sabedoria existentes, e filtra todos os elementos da conversa a partir de uma base de dados pertencente à empresa.

    Resumindo: pode acontecer de a versão digital da avó que faleceu reproduzir discursos que jamais seriam proferidos em vida, rivalizar com as crenças e com as ideias da pessoa em que se baseia.

    Como dito no vídeo, eu abriria mão de muita coisa para ter mais uma conversa com a minha avó Malvina, que nos deixou há alguns anos. No entanto, apesar de não ser uma pessoa religiosa, eu entendo que há algo sagrado a respeito da memória que nós não deveríamos, enquanto sociedade, profanar.

    Se existe um limite moral e ético, isso está em discussão, as linhas são tênues e absolutamente subjetivas, mas o propósito desse aplicativo é onde eu traço a minha linha.

  • O pedido de casamento perfeito

    O pedido de casamento perfeito

    Eu pedi minha mulher em casamento. Tem vídeo aqui, caso você queira ver.

    Precisamente na data do nosso terceiro aniversário de namoro. 

    Depois de quase três anos morando juntos (o que para mim já significa estar casado, por sinal). 

    Foi simples. Não teve pompa, champagne estourado, viagem pra ilha paradisíaca, ou jantar em restaurante com estrela Michelin. Nada disso.

    O casal de noivos

    Foi na sala de casa. Depois de um jantar que eu mesmo cozinhei. Na nossa intimidade, dentro da nossa rotina, em um espaço seguro.


    Sem serviço de garçom volante, sem ninguém ao redor, sem salva de palmas e olhares de transeuntes.

    Foi nosso. Só nosso. Único, lindo, do nosso jeito.

    E agora, depois de feito o pedido, é fácil falar assim. Não existe profissão mais tranquila do que engenheiro de obra pronta.

    Eu já estava pensando em como faria esse pedido há algum tempo. Amo tanto alguém que quero envolver até o Estado nessa relação, e agora? Como dizer isso de uma maneira memorável?

    Todas as ideias que eu tinha eram descartadas.

    Justamente porque não eram tão pomposas, tão maquiadas e instagramáveis. 

    Eu tive que lutar contra esse pensamento social – emburrecedor, por sinal – de que um pedido de casamento em Mykonos agrega mais valor do que um feito dentro do lar. Um conflito interno real, que resistia.

    Eu não quero pagar de moralista, ou diminuir quem se ajoelha frente à parceira nas Bahamas. Não é essa a ideia.

    Eu acho que é super legal, por sinal. 

    Eu só tive mesmo que lutar contra a ideia de que isso representaria um pedido de casamento perfeito para nós dois.

    Só porque a sociedade imprime que quanto mais dinheiro investido, maior a importância do pedido.

    E aí eu entendi que eu já estava preparado para assumir a responsabilidade de um matrimônio, de constituir uma família com alguém, e que perfeito mesmo é que o pedido seja feito, independente de quantos likes ele vai te gerar na rede social.

    Mas foi uma construção, ou melhor, uma reconstrução de pensamento que me levou a isso. Porque eu tenho essa mania de idealizar cenários a ponto de torná-los inalcançáveis. Inatingíveis. Sempre aumentando um ponto ao conto. Não basta ser em Bora Bora. Tem que ser lá, com show particular do Caetano Veloso, chegada de barco guiada por golfinhos e aliança entregue por um par de unicórnios albinos gêmeos.

    O irrealizável se transforma em procrastinação e ansiedade. É um modus operandi familiar e adoecido. 

    E burro, gente. Burro mesmo.

    E esse é o tipo de coisa que a gente só percebe depois. Quando se decide entregar o perfeito possível, que na verdade não era perfeito, até se tornar.

    Porque eu tenho certeza que meu pedido de casamento foi único, emocionante, memorável e que vai acompanhar as nossas lembranças para sempre. Vamos contar para filhos e netos, daquela vez que mamãe sentou na rede e papai mostrou um vídeo com uma serenata mal cantada – e vamos rir, nos emocionar.

    Porque o mais importante ali era o amor. É o amor. Que, diga-se, muitas vezes não está presente em pedidos transatlânticos, com tapetes vermelhos e um orçamento hollywoodiano.

    Não há nada mais extraordinário do que um homem comum construindo uma família comum.

  • Avestruzes e Irresponsáveis

    Avestruzes e Irresponsáveis

    Como um bom millenial que se preze, só sou capaz de concluir tarefas domésticas quando acompanhado de um podcast. O escolhido para lavar a louça hoje foi Avestruz Master, da Rádio Novelo. Por sinal, recomendadíssimo, ainda que eu tenha escutado apenas o primeiro dos quatro episódios já publicados.

    O assunto é o surto das fazendas de avestruz no Brasil no fim do século XX. Para quem não sabe – incluindo eu duas horas atrás -, houve no Brasil um boom de investimento na maior ave do mundo, que provou-se uma gigantesca bolha econômica. Teve gente que viu milhões irem por água abaixo e outros que perderam o pouco que tinham ao arriscarem no animal, que por sinal, é o primeiro selecionável no Jogo do Bicho.

    Mas o texto não é sobre essa história, afinal, tenho certeza que a Rádio Novelo é capaz de contá-la muito melhor do que eu.

    É sobre uma frase específica que eu ouvi durante o podcast. Uma aspa creditada à Manuel Piveta Assunção que, atualmente, é o maior estrutiocultor do país – por sinal, estrutiocultor quer dizer criador de avestruz. Eu também aprendi isso hoje.

    Ele disse:

    “Eu sempre ouvi que empreendedorismo se mede pelo tamanho da irresponsabilidade”.

    Disse o cara que mexeu com uma imensidão de produtos dentro do mercado do agronegócio, foi pioneiro em plantar soja no Sul do país, e tem a maior criação de um bicho que faliu milhares de pessoas no país, mas que lhe rende gordas cifras.

    Por sinal, antes que você fique chocado, eu não sou um conhecedor da vida e obra de Manuel Piveta Assunção, também só fui ouvir falar dele pela primeira vez umas duas horas atrás.

    Mas mexeu comigo essa afirmação.

    Justamente porque ultimamente intensifiquei minha atuação empreendedora na área de produção de conteúdo – o que, à letra fria da lei da vida, me parece uma retumbante irresponsabilidade.

    É um alento perceber que alguém com tino para negócios compartilha da mesma visão de mundo que eu. Paixões também são irresponsáveis, não?

    Aliás, posso dizer que as melhores decisões que tomei nesses 33 anos até aqui foram aquelas que todos disseram: “Nossa, mas você é corajoso”, quando na verdade queriam dizer “Que burrice”.

    Quando mudei de cidade pela primeira vez foi assim. Quando mais tarde mudei de país foi assim. Quando retornei ao Brasil em definitivo porque encontrei o amor… adivinhem? Foi assim.

    E essa é a definição de empreender na minha visão. Arriscar por algo que vale a pena. A vida é curta demais para excesso de responsabilidade. Mesmo que ao final do dia eu não possa esconder minha cabeça debaixo da terra, como um avestruz faria.

  • Uma visita incômoda ao passado

    Uma visita incômoda ao passado

    A série Adolescência, da Netflix, está no topo das paradas. É atualmente a produção mais vista na gigante do streaming no Brasil. Eu não sabia nada a respeito dela, até assistir a uma reportagem do Pedro Dória e da Cora Rónai, do Canal Meio, a respeito do tema. Na verdade, não vi o vídeo, apenas a chamada e me interessei.

    No mesmo dia, liguei a tv e fui direto ao título. São apenas 4 episódios, então decidi por terminar tudo em apenas uma sentada. Foi duro. É sobre um adolescente de 13 anos, suspeito de matar uma menina com quem estudava na escola, e as consequências geradas para ele, os amigos e a família.

    Jamie, personagem principal e suspeito de assassinato, com o pai na delegacia

    Todos os quatro episódios são gravados em plano-sequência – para quem não conhece o termo, plano-sequência é quando não há corte de edição. A câmera segue as personagens continuamente, sem que a cena se altere. É algo muito difícil de se alcançar tecnicamente. Em 4 episódios de 1 hora cada, então, é de uma minúcia impressionante.

    Mas sim, sobre a série… Ela te deixa engasgado com alguns temas: bullying, segurança digital, alienação parental e a simples e inquestionável maldade humana – que por incrível que pareça, consegue ser mais forte entre crianças e adolescentes do que entre adultos.

    Entre os 4 episódios, o terceiro para mim é o melhor de todos. Nele, uma jovem psicóloga tem uma sessão com o menino, suspeito de assassinato. Não vou revelar o conteúdo das conversas, mas é impressionante o quão fundo consegue-se ir dentro das fraquezas e inseguranças da criança, a ponto de se extrair todo o contexto e deixar a trama cristalina nas motivações. É cru. É tão humano, mas paradoxalmente, tão animalesco.

    O terceiro episódio vale por todos os outros. É fantástico.

    Eu gostei da série em geral, mas esse episódio vale mais do que todos os outros.

    Agora, o que mais me espanta, enquanto enxergo em retrospecto, é que poderia ter sido eu.

    Há duas décadas, com os mesmos 13 anos do protagonista, eu vivi a pior fase da minha vida. Nenhum desafio da vida adulta me proporcionou uma angústia tão recorrente e profunda quanto a rotina na sétima série do colégio.

    Eu não tinha muitos amigos na escola e calhou que a turminha com quem eu andava debandou para outras instituições de ensino. O bullying já existia, mas havia uma rede de apoio, na qual existia suporte e motivação, gente com quem andar no recreio e, portanto, conseguíamos construir uma redoma ao nosso redor, contra os valentões. Um grupo de desajustados lutando contra o sistema.

    Como eu disse, a rede de apoio se desfez. E, de repente, eu me encontrei sozinho para lidar com o problema.

    Vale ressaltar que à época eu estava visivelmente acima do peso e, provavelmente, fui o último de toda a série a atravessar a puberdade. Ou seja, com 13 anos eram todos uns semi-adultos intimidadores, enquanto eu era um gordinho com cara de criança, menor, mais fraco e com vozinha fina de taquara rachada.

    Para coroar, também usava aparelho fixo nos dentes, visto que minha arcada dentária, além de torta, contava também com protuberantes dentes incisivos, que me impediam de fechar os lábios por completo.

    Começaram por me chamar de Coelho, depois de Cenoura – por último, Noura. Um apelido nada carinhoso.

    E todos os dias da minha vida durante a sétima série, eu fui constantemente lembrado dos meus defeitos, da minha solidão e da falta de amigos.

    Todos os dias.

    Com terror psicológico, com abusos diários, com xingamentos, e em geral com uma covardia ímpar por parte dos meus algozes, que eram três ou quatro, mas um em especial. Todos maiores e mais fortes do que eu. Nenhum sinal de pena, nenhum sinal de remorso, ou de compaixão.

    Não sou capaz de reproduzir o discurso deles aqui, de tão imoral, baixo e violento.

    Eu chorava em segredo todos os dias.

    Chorava porque tinha medo do que poderiam fazer comigo e pela certeza da impunidade que os acompanhava.

    Então eu aguentei calado. Na verdade, eu tentava ser agradável com essas pessoas, ajudá-los quando necessitavam, oferecer uma mão nas matérias em que eu ia bem. Eu achava que poderia desconstruir o bullying, caso provasse minha utilidade, ou minha camaradagem. Eu nutria essa esperança em vão. Evidentemente, eles apenas se aproveitavam brevemente da minha ajuda enquanto ela os beneficiava, antes que voltassem ao massacre.

    Eu chegava em casa e me isolava. Passava horas no computador jogando Counter-Strike. Os únicos amigos que eu tinha aos 13 anos estavam on-line em outras partes do país.

    E eu tive sorte, essa é a verdade. Sim, tem uma questão da minha própria personalidade: razoável, ponderada, pouco belicista. Mas eu fui afortunado porque não estive exposto a nenhuma influência ruim, ninguém que me convencesse a fazer o mal. Um menino de 13 anos que se sente abandonado é altamente influenciável, ele precisa se sentir querido, achar que faz parte de algo.

    Hoje a situação na internet é muito mais perigosa que na minha época. Uma máquina de moer sentimentos e transformar crianças marginalizadas em pessoas perigosas, misóginas, sociopatas, assassinas em série.

    Neste campo, eu tive sorte.

    A injustificável maldade dos meus colegas de classe não se dissipava, e eu ia acumulando essa dor dentro de mim todos os dias. Até que um dia, em casa, após ser pressionado pela minha mãe – acho que por conta da minha queda de performance nas aulas, refletida no boletim -, eu explodi.

    Eu contei tudo.

    Avisada, a coordenação entrou em tom de repressão nas salas de aula, e a situação se amenizou por uma, talvez duas semanas. Mas depois voltou. E eu precisei lidar com isso até o final da sétima série.

    Na oitava, o pior dos babacas saiu de lá. E depois, perto dos 16 anos, eu já havia mudado, atravessado a puberdade e encontrado minha turma de amigos fora da escola, muitos dos quais me acompanham até hoje.

    Eu olho para trás e penso em como eu gostaria de ter me comportado de outra maneira diante daquela situação. Ter me imposto, batido de frente, mostrado agressividade.

    Mas não foi o caso. Eu ia como uma ovelha para o abate todos os dias. Rezando para que aquele dia fosse o último, que meu sofrimento acabasse. Eu perguntava aos céus por que, entre todas as pessoas, eu que precisava passar por aquela penitência.

    Hoje não tenho mais raiva deles. Mas tenho curiosidade para entender o motivo do ódio que nutriam por mim. Porque não pode ser explicado de outra forma. Era ódio e, ao meu ver, injustificável.

    Também não sou hipócrita a ponto de dizer que espero que eles estejam felizes, que tenham aprendido com a vida, e que está tudo no passado. Não. Deles não quero e nem espero nada.

    Eu herdei algumas características desse período. Alguma boas, outras más. Por exemplo, eu não me calo mais quando estou incomodado, e bati de frente quando me senti desrespeitado em diversas ocasiões, tenho uma tendência a proteger pessoas quando acho que são tratadas injustamente.

    Por outro lado, há um senso de autossabotagem, desconfiança nas pessoas e necessidade de aprovação externa que me acompanham até hoje – e acredito que estão de alguma forma ligados direta ou indiretamente a esse trauma.

    Apesar dos pesares, gosto de acreditar que me transformei em um ser humano decente.

    A série Adolescência trouxe à superfície uma série de questões que hibernavam em mim. E sabe o que é pior? Não acredito que exista remédio para o bullying, ou forma de contenção.

    As escolas continuarão a desenvolver palestras e seminários, mas nunca vão cortar o mal pela raíz. Sendo sincero, não sei nem quais mecanismos poderiam utilizar para isso. Seja por questão pedagógica ou financeira, a intervenção vai apenas até a página dois.

    Professores não têm controle total sobre a ação dos alunos, e também não se pode exigir que a pobre Dona Rosângela, professora de português de 58 anos, possa ter qualquer tipo de capacidade em amenizar uma situação dessas.

    A formação do indivíduo parte de casa. Não é papel da escola, mas os pais podem se esforçar em proteger e educar os filhos, e não cometer nenhum erro proposital. Só que a influência deles não alcança todos os campos. Crianças e adolescentes, como já disse antes, são particularmente cruéis. Criam as próprias castas e mecanismos de poder.

    Não sei muito bem como encerrar o texto.

    Sinto que apenas vomitei verborragicamente sentimentos reprimidos no meu peito. Acho que exigiu certa coragem em expôr um evento do qual eu gostaria de não ter lembrança alguma.

    Enfim, se você leu o relato inteiro, eu só gostaria de agradecê-lo pelo ombro amigo.

    Para fechar com um grau de positividade, é bom lembrar que por pior que a situação seja, tudo sempre passa.

    E pode não parecer na hora, mas a experiência nos fortalece para o futuro.

    Olhem por seus filhos, amigos e pessoas queridas sempre.

  • Uma noite de tango em Buenos Aires

    Uma noite de tango em Buenos Aires

    Eu admiro a paixão da torcida argentina pela seleção de futebol do país. É um sentimento arraigado, forte, pungente, do qual não sonhamos em passar perto enquanto acompanhamos a Canarinho. Não se trata de vira-latismo. É a simples constatação do óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues.

    O escrete argentino tem uma ligação especial com as arquibancadas do Monumental, de uma forma que nunca almejamos no Brasil. Uma paixão sofredora e irrefreável, que cega e faz pulsar o coração. Um time que sente o calor da arquibancada e o justifica em campo, com sangue, suor e lágrimas.

    Por aqui, um tímido “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” – talvez o pior cântico de torcida já inventado até o presente momento – jamais terá a força da hinchada Albiceleste. Somos torcedores de clubes, não da Seleção.

    Na prévia da partida, brincou-se com dar porrada nos argentinos. E veja bem, com o futebolzinho apresentado pela Seleção de Dorival Júnior, eu já me sentia atormentado pelas declarações do atleta Raphinha.

    Do outro lado estava a atual campeã do mundo, entrosada, embalada, já classificada e com o poder místico do Monumental como décimo segundo jogador.

    O realismo gritava nos meus ouvidos, acusando que, potencialmente, seríamos nós os sacos de pancada.

    Mas eu errei.

    Não teve agressão na bonita noite de Buenos Aires.

    Houve um baile. Ou um tango, que talvez seja o mais culturalmente correto.

    Nem mesmo Carlos Gardel compôs linhas tão melodiosas quanto a linha de passe da equipe azul e branca em 25 de março de 2025.

    Uma elegância imponente, sedutora, envolvente.

    Desiludida pela atuação brasileira, minha mulher recolheu-se ao quarto no intervalo e, como é de praxe das mulheres que amam, perguntou:

    “Não prefere deixar isso para lá e ir deitar comigo”.

    Ora, meu amor… E perder o espetáculo?

    No fim, 4 a 1 para eles, gritos de olé, e um estádio em êxtase.

    Fui dormir chateado? De forma alguma. Além do teatro, a verdade é que ficou barato.

    Ao som de Gardel, a torcida portenha fez um minuto de silêncio pela Verde e Amarela.

    “Adiós Muchachos”.

  • A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan

    A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan

    Você já ouviu falar em Deja Vu?

    O livro A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan, me proporcionou um acontecimento único até aqui na minha vida.

    Foi um dos livros que eu adicionei à lista de leituras desejadas para o ano – e isso pode não soar muito relevante, mas as publicações que adentraram esse hall foram devidamente pesquisadas a respeito. Leram-se sinopses e mais sinopses. Não sou o tipo de pessoa que adiciona um livro à estante sem nenhuma informação a respeito dele.

    Tá, e por que essa informação é importante? Imagino que você esteja se perguntando…

    Porque apesar de atravessar essa minuciosa triagem, ainda na metade do primeiro capítulo, A Visita Cruel do Tempo, começou a transmitir uma angústia que eu não conseguia explicar bem. Era familiar demais, quase como se eu já tivesse passado por aquilo antes. Um deja vu literário. Eu precisei de mais um capítulo para que a ficha caísse por completo:

    Caramba, eu já li esse livro antes. Mas eu não me lembro.

    Mesmo depois da pesquisa e das sinopses, eu não percebi. Seria uma leitura repetida. E quando dei por mim, a angústia crescia a cada página que eu virava. Eu conheço essas pessoas, apesar de não conhecê-las mais. E a memória não se restaurava, ou seja, eu tinha certeza absoluta que já havia passado por aquela história antes, mas não tinha ideia de qual seria o desfecho.

    Devo confessar que isso impactou na minha boa vontade com o livro. Afinal, uma obra que eu não recordo de ler, nem mesmo sou capaz de lembrar do título na capa, invariavelmente só pode ter me proporcionado uma experiência apagável, indiferente, sem marcas.

    E sabe de uma coisa? Que bom que eu continuei lendo. Porque foi uma lição de humildade.

    Jennifer Egan vai e volta na cronologia dos personagens durante a obra, mas foi o capítulo 10 que me pegou de jeito. Até o décimo capítulo, sinto que imperava meu desprazer em reler algo varrido para as gavetas mais escusas da minha mente. Mas no capítulo 10, meus amigos. Ah, no capítulo 10…

    Foi como se eu estivesse lendo pela primeira vez – não o livro, mas na vida. Porque uma coisa é avançar linhas em uma página, outra é sentir profundamente a dor de alguém. E eu senti a dor de Rob no décimo capítulo. O único que conta a história dele. E eu entendi Rob. E eu empatizei com Rob, apesar de não compartilhar dos mesmos problemas que ele.

    Sabe, Rob me mostrou que mesmo um livro já lido, mesmo um esquecido, pode proporcionar algo belo.

    Se o título é A Visita Cruel do Tempo, não há como não traçar um paralelo com ideais heraclitianos de homens e rios que nunca são os mesmos. Dez anos depois, um Daniel diferente pegou um livro que já lera, mas a experiência transformou o livro em algo novo.

    Pelo menos do décimo capítulo em diante.

    É difícil para mim atribuir uma nota justa ao livro. Ele mexeu com meus sentimentos positivamente e negativamente. Mas se você quiser uma visão menos enviesada que a minha, talvez você deva considerar a dos jurados do Prêmio Pullitzer – que premiaram a obra em 2011.

    É sobre rock’n’roll, sobre definhar enquanto humanos, mas também sobre redenções. Talvez principalmente sobre redenções. Porque um momento da nossa existência não nos define, tampouco escolhas erradas, ou a profissão que escolhemos, os parceiros com quem vivemos, nada disso. O tempo é cruel e ele é o que nos transforma: e só pára quando o último ponteiro passa da meia-noite.

    Nota 4/5, mas leve com uma pitada de sal.

  • Pequena coreografia do Adeus, de Aline Bei

    Pequena coreografia do Adeus, de Aline Bei

    Há livros tristes, livros sobre abandono, livros que te fazem chorar, e que mostram a complexidade do ser humano – e de tudo que se convém chamar de relacionamento. Pequena coreografia do Adeus, de Aline Bei, engloba todas essas características.

    Júlia teve uma infância conturbada. Mãe violenta, pai omisso. Cresceu em um ambiente inseguro, carente de afeto e cumplicidade. Autoestima no chão, raiva que a faz explodir em certos momentos, uma batalha constante contra o abismo da solidão – que parece um bom lugar, quando comparado ao lugar comum dos abusos físicos e psicológicos.

    É um livro que escancara: há pessoas que simplesmente não nasceram para procriar, que se enxergam incapazes de amar a prole, e se colocam em constante competição com os rebentos.

    Ficamos assim com uma genitora narcisista a desenvolver traços psicóticos, e um pai que procura em outros muitos braços seus abraços, que pouco significam. Na orelha do livro pode se ler: “a mãe não suporta a ideia de ter sido abandonada pelo marido, enquanto o pai não suporta a ideia de ter sido casado”. Eu não poderia definir melhor.

    E no meio de um injusto turbilhão de sentimentos está a pequena Júlia, que apesar dos pesares, cresce para tornar-se uma adulta funcional e sonhadora. Infelizmente, o suporte nunca vem de casa, e ela precisa buscar fora do seio familiar personagens que a ajudam a se guiar por este mundo de mágoas.

    Aline Bei é autora de mão cheia. Capaz de traduzir dor e sofrimento, sem perder a leveza de suas linhas. No entanto, sinto que existe uma predisposição gigantesca a tudo poetizar, contudo, nem tudo é poético. Isso se reflete no texto.

    Porque você
    que ainda não leu
    Pequena Coreografia
    do ADEUS, não sabe.
    Mas o texto é todo disposto assim, em versos sem métrica.
    Para enfatizar
    a poesia disforme da história toda.
    E eu entendo. Juro.
    É o estilo da autora. A forma de
    colocar
    a dor no papel.
    Mas
    Em um ou outro momento
    Me tirou
    A paciência.

    Mesmo com a superpoetização, não se engane. É um livro que vale a pena ser lido. Mas vá preparado. É triste do início ao fim.

    Nota 4,5/5.

  • O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório

    O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório

    O que é racismo?

    Quando imaginamos um racista, pintamos na cabeça um quadro de algém da alt-right, de características arianas, caricato, vilanesco e muito distante do que acreditamos constituir um ser humano decente.

    Só que essa é a ponta do iceberg. O racismo, principalmente o que está tão entranhado à construção social brasileira, vai muito além de débeis fascistóides e gestos explícitos, como uma banana atirada a um jogador negro em estádios de futebol, ou um desafeto chamado de macaco.

    O carioca Jeferson Tenório prova repetidamente, durante o livro O Avesso da Pele, que o racismo se esconde sob camadas muito mais sutis, que se mascaram em atitudes cotidianas, no vocabulário, e em gestos que parecem inocentes à primeira vista, mas que carregam uma história de opressão por trás.

    Com personagens que transbordam frustração, raiva, impotência e dor, Tenório ilustra as variadas formas de racismo – desde a escancarada violência policial, até a mais velada das camadas -, enquanto conta uma história envolvente de tragédias familiares: assim mesmo, no plural.

    Uma narrativa em segunda pessoa, travestida de primeira pessoa. Ao avesso, como o título do livro. Uma memória, um diário, talvez uma carta de um menino endereçada aos pais. Tem sutileza mesmo nos momentos duros, que não são raros ao longo da leitura.

    O Avesso da Pele é simples e direto. Na melhor definição possível que você possa encontrar no dicionário. Os personagens criados são tão reais que você pode esbarrar com eles na esquina de casa. É fácil de gostar deles e mais fácil ainda entender e perdoar os defeitos que apresentam.

    Um livro que é político sem ser panfletário, sem utilizar de atalhos, sem repetir discursos. É a melhor leitura que tive em 2025 até o momento.

    Nota 5/5. Venda todas as suas coisas para comprar um exemplar, se preciso.

  • Os sete maridos de Evelyn Hugo, por Taylor Jenkins Reed

    Os sete maridos de Evelyn Hugo, por Taylor Jenkins Reed

    Os sete maridos de Evelyn Hugo, da autora Taylor Jenkins Reed, bebe da mesma fonte de O Diabo veste Prada. Seguem os mesmos passos para fermentar o bolo que guia a narrativa. Vamos lá, para essa receita você vai precisar de:

    • Uma moça inexperiente, doce e ingênua – com muito potencial -, que irá evoluir e amadurecer ao longo da trama. Ah… e que precisa se recuperar de um término de relacionamento também;
    • Uma protagonista forte, imponente, temida, e mundialmente reconhecida, que resolve dar à moça ingênua uma grande chance na vida;
    • Doses generosas de drama;
    • Uma pitada de sarcasmo;

    Junte todos os ingredientes, bata bem, leve ao forno. E tá pronto.

    Miranda Priestly (O Diabo Veste Prada) e Evelyn Hugo reservam certas semelhanças

    Por mais que a construção não seja ultra original, o livro me agradou enquanto passatempo. A leitura é fluida e as páginas passam rápido.

    Não é só glamour. Aborda temas importantes e duros, como violência contra a mulher, machismo, homofobia e eutanásia. Mesmo assim, o faz sem perder a leveza na retórica – e isso é difícil de se alcançar.

    A sinopse

    Monique Grant, de 35 anos, é jornalista júnor na famosa revista Vivant, mas não tem uma trajetória profissional muito digna de nota, e sente-se invisibilizada. Nas primeiras páginas do livro, Monique é chamada pela editora da Vivant, Frankie, para uma conversa séria a sós.

    A lendária atriz Evelyn Hugo, quase octogenária, fará um leilão beneficiente em homenagem à filha Connor, recém falecida, vítima de câncer de mama. A assessoria de Evelyn entrou em contato com a revista para uma entrevista exclusiva, mas sob uma condição: que a pauta seja conduzida por Monique.

    Não faz sentido. Monique é uma zé ninguém. Evelyn Hugo é uma diva que moldou a história de Hollywood. Aparentemente não há conexão nenhuma entre elas.

    Então, sob olhares suspeitos da chefia, a repórter é escalada para a exclusiva. Ao chegar na suntuosa mansão de Hugo, Monique descobre que ganhou muito mais que uma matéria de capa para a Vivant. Ela foi escolhida a dedo pela estrela das telonas para ser a escritora de uma biografia autorizada, que valerá milhões em direitos.

    Um evento que mudará para sempre a carreira de Monique.

    Evelyn Hugo, a femme fatale de Hollywood.

    Os sete maridos

    O trampolim. O agressor. O astro de rock. O melhor amigo. O arrogante. E por aí vai…

    Evelyn Hugo casou-se tantas vezes, mas quase nenhuma delas por amor. O livro se organiza de forma que cada capítulo é um marido, para contar a história de ascenção de uma latina, descendente de cubanos, que pinta o cabelo e disfarça a origem para brilhar nos cinemas e se tornar uma das principais femme fatales de Hollywood.

    Eles que foram maridos dela. Ela não foi mulher de nenhum deles – já que o amor da vida de Hugo não estava entre os sete – mas isso já é spoiler.

    A platônica relação com Harry Cameron e o começo da trajetória com Celia St. James são os pontos altos da narrativa.

    O final

    Eu costumo ser alheio a plot twists. Normalmente, já conjecturei tantas possibilidades na minha cabeça que acabo acertando o desenrolar do enredo, por tentativa e erro. Às vezes é óbvio o que vai acontecer, outras vezes nem tanto. Mas em Os sete maridos de Evelyn Hugo, o final me pegou de surpresa. Uma raridade.

    Nenhuma das possibilidades que aviltei entre Evelyn e a razão para exigir que Monique fosse a escritora da biografia se provaram corretas.

    No entanto, existe a intenção de criar uma relação de ódio entre a escritora e o objeto de escrita nas últimas páginas, que não me pareceu forte o suficiente.

    Conclusão

    Acaba que Os sete maridos de Evelyn Hugo é um tanto paradoxal, pois consegue ser surpreendente e previsível ao mesmo tempo no desfecho. Segue uma fórmula pronta, apesar de trazer elementos necessários e interessantes. A narrativa perdoa agressor, o que não é algo que eu curta, mas entendo as razões dentro da trama.

    Eu sinto que foi uma leitura que me prendeu, mas não me marcou. 4/5.

    Ah, vai virar filme…

  • O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk

    O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk

    Eu adorei o conceito d’O Som do Rugido da Onça, de Micheliny Verunschk. A autora pernambucana conta uma história real sobre o colonialismo e os efeitos devastadores dele para os povos originários, sob um prisma de fantasia que me interessou bastante.

    Em uma obra repleta de lirismos e neologismos, Verunschk conta a epopéia de Iñe-e, menina da tribo Miranha, que ao lado de um rapaz da tribo rival Juri é traficada para a Alemanha, como “fruto” da expedição encabeçada pelos cientistas Carl Friedrich Martius e Johann Baptist von Sphinx.

    Iñe-e, rebatizada Isabella Miranha na Alemanha, a protagonista da obra


    A expedição existiu no mundo real, e após serem levados à Munique como presentes à Coroa, as crianças foram rebatizadas como Isabella e Johann e padeceram pouco depois, em decorrência do rigoroso inverno europeu – isso tudo está documentado.

    À autora, cabe ficcionalizar as “entrelinhas” da História.

    A personagem principal da trama, Iñe-e, é menina-onça, reconhecida pelo espírito de Tipai-uu, grande predadora divina das matas tupiniquins, que habita o folclore do povo Miranha. Meio felino, meio menina, a jovem tem dentro de si o furor da caçada e um rugido digno do topo da cadeia alimentar.

    A rainha das nossas matas, de quem Iñe-e herdou o sangue

    Por conta dessa coligação com o espírito, Iñe-e é temida pelo próprio pai, o líder da tribo, que para livrar-se da menina, a oferece como presente aos expedicionários.

    O livro ressalta a dor das crianças raptadas, em terrível viagem de barco de volta ao Velho Mundo. Separo aqui uma passagem:

    “A intenção era que a Europa pudesse admirar aquele deslumbre de vida que há muito perdera. A Europa era velha, muito velha, reumática, quiçá sofrendo alguma moléstia cancerosa. E aquilo que os cientistas traziam consigo era uma promessa, uma fonte de juventude, novíssima pedra filosofal”.

    Micheliny Verunsk trata também do desprezo dos colonizadores e da crueldade de Martius, recortado como o principal vilão da trama.

    Sphinx e Martius, os expedicionários colonizadores, que passaram pelo Brasil no séc XIX.


    Agora vamos aos pontos negativos – na minha opinião, claro.

    A narrativa principal se reveza com um conto contemporâneo, a respeito da jovem Josefa, que ao meu entender, tem como intenção criar um laço com Iñe-e e como sofremos até hoje consequências negativas herdadas do Brasil-Colônia. Mas senti uma desconexão entre as narrativas, sem que Josefa e a linha do tempo em que se introduz fossem plenamente desenvolvidas.

    Como escrito no segundo parágrafo, o texto faz uso de lirismos, neologismos e também de palavras pertencentes ao vocabulário Miranha. Não me agrada a posição de jurado de estilo, mas ao meu parecer, a extrapolação dos termos torna o livro levemente parnasiano em determinados momentos. É uma leitura que exige do leitor – não que isso seja ruim, mas senti certo exagero.

    O início da obra é super dinâmico e as páginas voam. O último terço, no entanto, é um tanto arrastado: tive a impressão que poderia ser mais curto. Não é um bom sinal para um livro com menos de 180 páginas.

    (Você está entrando na área de Spoiler!!!)

    O Som do Rugido da Onça se divide em três partes. O primeiro ato contextualiza as personagens e documenta o rapto das crianças. O segundo, traz mais detalhes sobre Josefa e a morte das crianças na Bavária.

    E o terceiro? Justamente sobre ele que eu gostaria de discutir.

    Na terça parte, Iñe-e morta enquanto criança, é reencarnada como onça, resgatada pela protetora Tipai-uu e rebatizada: Uaara-Iñe-e.

    E como “justiça de onça é no dente”, as jaguaras partem em redenção sangrenta, empilhando vítimas nas florestas brasileiras, antes de um passeio astral até a Alemanha, onde dão cabo também da vida do expedicionário Martius.

    É o momento mais etéreo da trama, acompanhado pela parte mais lírica do texto. Apesar de eu entender – e inclusive aprovar – a intenção da autora de criar um arco de vingança para a personagem, não fui envolto na narrativa tanto quanto gostaria.

    Agradeci quando a trajetória de Uaara-Iñe-e terminou, com um merecido descanso na maloca das onças.

    (Fim da área de Spoiler)

    Deixei para dizer isso no final para que não influenciasse opiniões, mas devo contá-los que o livro foi o grande vencedor do Prêmio Jabuti em 2022.

    Vale a leitura?

    Acho que sim, e consigo enxergar O Som do Rugido da Onça como currículo nas escolas.

    Confesso, no entanto, que as garras da felina não me envolveram por completo. 3.5 de 5.