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  • Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl.

    Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl.

    Sobreviventes e Desistentes: um paralelo entre prisioneiros de Auschwitz e minha avó Malvina.

    Não se deixe iludir pelo título do livro. Em Busca de Sentido passa muito longe dos manuais de autoajuda que hoje existem.

    Em um livre jogo de associação, a palavra “psicanálise” te faz lembrar de algum lugar no planeta Terra? Provavelmente a sala do terapeuta. Mas tem uma cidade no mundo que estabelece uma correlação direta com essa ciência: Viena. A capital austríaca tem dois produtos de tipo exportação: músicos clássicos e psicanalistas.

    Sigmund Freud, que está para a mente humana assim como Mozart está para os acordes do piano, é o nome mais famoso dessa corrente médica. Não a toa é reconhecido como o “Pai da Psicanálise”. Freud é Vienense, mas não é o único psicanalista expoente que veio de lá – assim como Mozart não é o único musicista.

    Alfred Adler, fundador da escola de psicologia individual, também deu origem à prática médica na capital europeia. A linha adleriana defende o conceito de que a personalidade é única, intransferível e indivisível. Diferente de Freud, Adler acredita que estudar o indivíduo e o que o constitui é o primeiro passo antes de entendê-lo no contexto social.

    Mais novo e menos conhecido que os dois nomes citados, o Dr. Viktor Frankl é o “criador” da Logoterapia, conhecida também como a terceira escola vienense de psicoterapia (freudiana e adleriana são as duas primeiras). A logoterapia é focada em utilizar a exploração do sentido de vida enquanto principal objetivo para o tratamento dos pacientes.

    Viktor Frankl, pai da logoterapia e autor de Em Busca de Sentido



    O Dr. Frankl (1905-1997) publicou mais de 30 livros ao longo de vasta trajetória profissional. Curiosamente, o mais famoso de todos, Em Busca de Sentido, foi concebido pelo autor com a intenção de ser publicado anonimamente – mas Frankl foi convencido do contrário por amigos próximos e assina a obra atemporal. Tive o “prazer” de ler a obra. Assim, entre aspas, pois é difícil categorizar como prazerosa uma leitura que trata da vida em campos de concentração. É um retrato autobiográfico sobre um prisioneiro que viveu os dias de horror nazista – no caso, o Dr. Frankl esteve em Auschwitz e outros quatro campos menores.

    Os assuntos Segunda Guerra Mundial e Holocausto exercem um fascínio lúgubre sobre mim desde que tenho idade para compreendê-los minimamente. Há pelo menos duas décadas sou ávido consumidor de obras – ficcionais ou não – que retratem o período. De “É isto um homem” de Primo Levi a “Maus” de Art Spiegelman; passando por pianistas, meninos de pijamas listrados, meninas que roubavam livros e listas de Schindler. Relatos crus e viscerais, ou realismo fantástico Tarantinesco.

    Auschwitz, o mais famoso campo de concentração nazista.

    Dito isso, estou vacinado – se é que há a possibilidade para tal – contra a dureza dos relatos da tão escabrosa história, tão recente história. Ainda assim, a experiência vivida nas palavras do Dr. Frankl foi absolutamente inédita. É o relato mais puro e avassalador que já li sobre o tema.

    O criador da logoterapia, à época um psicólogo no campo de concentração, é capaz de ilustrar com assertividade a vida sob o domínio nazista, sob a ótica do prisioneiro médio, sem recorrer a pontos fora da curva ou histórias notáveis e jornadas do heroi. Apenas como a cabeça de gente comum funcionava diante da perturbadora realidade desumanizante.

    Seguidamente me vi embasbacado pelas palavras de Viktor Frankl.

    Segundo ele, alguém que não viveu essa realidade é incapaz de compreender a violenta luta diária pela sobrevivência. A começar pela forçada seleção “darwinista” imposta pelos nazistas, tantas e tantas vezes. Ser escolhido para o lado bom significava trabalho escravo forçado. O lado ruim representava sair pela chaminé dos crematórios. Seleções eram corriqueiras, sendo necessário certo grau de bestialidade e brutalismo para consistentemente se ver selecionado para o “lado bom”. Uma dose de egoísmo até. Nas palavras de Frankl, os melhores e mais modestos não sobreviveram.

    Survival of the fittest.

    Seleção nazista durante a chegada de prisioneiros ao campo, já na saída dos trens.


    A tremenda luta por viver encontra, paradoxalmente, enorme apatia, diante do processo de despessoalização humana, quando nomes viram números tatuados no braço e as chicotadas não dóem tanto quanto o escárnio de quem as aplica.

    O tema do livro é fiel ao título – como a busca por sentido mantém a chama da vida acesa, mesmo diante de condições terríveis. Motivos variados encorajavam prisioneiros subnutridos a encarar as extremas dificuldades e comemorar cada dia sobrevivido: como formar uma família, ou encontrar a sua, separada pelos nazistas, ou escrever um livro, ou comer novamente o prato preferido cercado por amigos. A engrenagem seguia em movimento motivada pelo que se esperava do futuro. O porvir era o que separava os sobreviventes de quem se atirava às cercas eletrificadas para dar um basta ao sofrimento.

    O trecho que mais me impactou no livro foi a descrição dos desistentes. Quando o sentido deixava de fazer sentido, ou cessava de existir, era perceptível aos demais. O prisioneiro em questão não levantaria da cama – impossível movê-lo sob motivação ou ameaça -, então lá permanecia deitado, atônito, frequentemente sujo nas próprias necessidades, incólume ao que acontecia. Ainda deitado, acendia um cigarro, mercadoria valiosa no campo, que poderia ser trocada por comida. Nada mais importava. Segundo o Dr. Frankl, os desiludidos raramente sobreviviam por mais de 48 horas, já que cessara o motivo para permanecer na luta.

    Me senti profundamente tocado pelo relato dos desistentes, pois sinto que – guardadas as devidas proporções -, ele traduz bem os últimos dias da minha avó Malvina. A pessoa mais cosmopolita que eu conheci, capaz de conversar acerca de qualquer assunto, com qualquer pessoa. Vivaz, com senso de humor mordente, timing cômico impecável, rara inteligência. Ao final, completamente entregue, deprimida e desprovida de qualquer vontade. Não se importava mais com a higiene pessoal, passava os dias deitada e não se deleitava com qualquer atividade que não envolvesse comer ou dormir.

    Para a minha avó, em alguma parte da trajetória, o sentido se perdeu. Ela passou então a ser refém dentro do próprio corpo, enquanto aguardava o fim – só lhe faltou o cigarro.

    Eu e minha avó Malvina, antes da desistência.

    O livro do Dr. Frankl tem muitos outros momentos dignos de atenção, como a formação de “santos” e “porcos”, que no léxico do autor representam como a agrura extrema é capaz de escancarar o melhor e o pior das pessoas.

    A trajetória do próprio Viktor Frankl é interessantíssima, transferido múltiplas vezes, contando com a sorte em outras inúmeras ocasiões.

    A obra te deixa vidrado, engasgado, por vezes com lágrimas nos olhos. Pode necessitar de uma pequena pausa para respirar entre capítulos. Me ensinou um mundo em poucas páginas. O Dr. Frankl é um autor com o poder de entrar na sua mente e, no meu caso, cultivar um questionamento: teria sido eu um bom psicanalista?