Tag: bem-estar

  • O pedido de casamento perfeito

    O pedido de casamento perfeito

    Eu pedi minha mulher em casamento. Tem vídeo aqui, caso você queira ver.

    Precisamente na data do nosso terceiro aniversário de namoro. 

    Depois de quase três anos morando juntos (o que para mim já significa estar casado, por sinal). 

    Foi simples. Não teve pompa, champagne estourado, viagem pra ilha paradisíaca, ou jantar em restaurante com estrela Michelin. Nada disso.

    O casal de noivos

    Foi na sala de casa. Depois de um jantar que eu mesmo cozinhei. Na nossa intimidade, dentro da nossa rotina, em um espaço seguro.


    Sem serviço de garçom volante, sem ninguém ao redor, sem salva de palmas e olhares de transeuntes.

    Foi nosso. Só nosso. Único, lindo, do nosso jeito.

    E agora, depois de feito o pedido, é fácil falar assim. Não existe profissão mais tranquila do que engenheiro de obra pronta.

    Eu já estava pensando em como faria esse pedido há algum tempo. Amo tanto alguém que quero envolver até o Estado nessa relação, e agora? Como dizer isso de uma maneira memorável?

    Todas as ideias que eu tinha eram descartadas.

    Justamente porque não eram tão pomposas, tão maquiadas e instagramáveis. 

    Eu tive que lutar contra esse pensamento social – emburrecedor, por sinal – de que um pedido de casamento em Mykonos agrega mais valor do que um feito dentro do lar. Um conflito interno real, que resistia.

    Eu não quero pagar de moralista, ou diminuir quem se ajoelha frente à parceira nas Bahamas. Não é essa a ideia.

    Eu acho que é super legal, por sinal. 

    Eu só tive mesmo que lutar contra a ideia de que isso representaria um pedido de casamento perfeito para nós dois.

    Só porque a sociedade imprime que quanto mais dinheiro investido, maior a importância do pedido.

    E aí eu entendi que eu já estava preparado para assumir a responsabilidade de um matrimônio, de constituir uma família com alguém, e que perfeito mesmo é que o pedido seja feito, independente de quantos likes ele vai te gerar na rede social.

    Mas foi uma construção, ou melhor, uma reconstrução de pensamento que me levou a isso. Porque eu tenho essa mania de idealizar cenários a ponto de torná-los inalcançáveis. Inatingíveis. Sempre aumentando um ponto ao conto. Não basta ser em Bora Bora. Tem que ser lá, com show particular do Caetano Veloso, chegada de barco guiada por golfinhos e aliança entregue por um par de unicórnios albinos gêmeos.

    O irrealizável se transforma em procrastinação e ansiedade. É um modus operandi familiar e adoecido. 

    E burro, gente. Burro mesmo.

    E esse é o tipo de coisa que a gente só percebe depois. Quando se decide entregar o perfeito possível, que na verdade não era perfeito, até se tornar.

    Porque eu tenho certeza que meu pedido de casamento foi único, emocionante, memorável e que vai acompanhar as nossas lembranças para sempre. Vamos contar para filhos e netos, daquela vez que mamãe sentou na rede e papai mostrou um vídeo com uma serenata mal cantada – e vamos rir, nos emocionar.

    Porque o mais importante ali era o amor. É o amor. Que, diga-se, muitas vezes não está presente em pedidos transatlânticos, com tapetes vermelhos e um orçamento hollywoodiano.

    Não há nada mais extraordinário do que um homem comum construindo uma família comum.

  • Descultizando a Norma

    Descultizando a Norma

    Eu devia ter uns 19 anos, mais ou menos.

    Estava no meu primeiro estágio em uma redação de jornal – por sinal, a única vez que vivi esse jornalismo raíz de pauta, com hora pra fechar a edição e aquela adrenalina toda que só quem viveu conhece.

    Jornal popular, esportivo, com apelo às massas.

    Minha carinha saía assim no jornal àquela época. Faz tempo, viu?

    Começou um papo sobre gente que escrevia bem, que lá pelas tantas descambou para posts no Facebook. Algum colega disse que leu uma postagem repleta de erros de português.

    “Mas o texto era bom?” – eu perguntei.

    “Acabei de dizer que estava cheio de erros de português” – o interlocutor respondeu, meio sem paciência, como se apontasse uma obviedade.

    “Essa parte eu entendi, mas não acho que isso define a boa comunicação. Tem gente que não conseguiu estudar, mas que é capaz de se fazer entender”.

    A editora, minha chefe na ocasião, ouviu a conversa e resolveu se intrometer.

    “Se alguém publica algo repleto de erros, eu tenho preconceito e nem leio”.

    Grande parte das pessoas à minha volta concordaram. Eu, um mísero e sobrecarregado estagiário, me calei.

    Àquela época, ainda estavam frescas em minha memória as aulas de Teoria da Comunicação que tive na faculdade. Hoje já faz um tempinho, mas posso tentar explicar para vocês de uma maneira simplificada.

    No processo da comunicação humana, nós temos:

    1) O Transmissor – alguém que quer passar uma mensagem. No caso, a pessoa que escreveu o post repleto de erros de português.

    2) Ele se comunica com o Receptor, o destinatário (nesse contexto, a pessoa que leu o post).

    3) A mensagem é a informação que é transmitida, certo? Ela é enviada por meio de um código – nesse exemplo, o código escolhido para o post no Facebook foi a língua portuguesa escrita, mas poderiam ter sido gestos, braile, código morse, outro idioma, etc.

    Resumindo:

    Transmissor -> Mensagem codificada -> Receptor

    E quando a Comunicação funciona?

    Explicando mal e porcamente: quando o Receptor é capaz de entender e contextualizar a mensagem do Transmissor.

    Se eu falo algo em inglês e você não entende inglês, não há comunicação efetiva.

    Se eu falo português e você também, mas você é incapaz de absorver o contexto, não há comunicação efetiva. Por exemplo, nas minhas aulas de química inorgânica na escola, a professora falava português, mas para mim parecia grego.

    Beleza, mas por que eu dei essa volta toda? É uma pergunta honesta, mas você vai entender meu raciocínio agora.

    Leia essa frase aqui, por favor:

    “Oji eu cordei cuma sodade danada da muié, cadiquê eu amo ela muito”

    Você foi capaz de entender o que está escrito? Eu posso apostar que sim.

    Mesmo que oji se escreva hoje; que a contração “cuma” não exista na gramática; que ‘cordei’, ‘sodade’ e ‘muié’ sejam abreviações com “erros” ortográficos; que a palavra cadiquê seja substituída com “por causa de que” – que mesmo assim não está correto gramaticalmente.

    Por sinal, até o “eu amo ela” está ‘errado’. O correto seria “eu a amo”.

    Acho que você já entendeu o intuito desse teste. Eu queria demonstrar que a comunicação pode ser efetiva, mesmo que os famigerados “erros de português” estejam presentes.

    Agora me acompanha nesse salto de pensamento:

    Dizemos que alguém escreve certo quando respeita as normas gramaticais, também conhecida por norma culta.

    Epa, pera lá… norma CULTA?

    Você já parou pra refletir no significado desse adjetivo? Uma pessoa culta é alguém com estudo e instrução, certo?

    Mas pode significar mais que isso na verdade. Uma pessoa culta, de acordo com o dicionário, se traduz por alguém que alcançou um estágio superior de civilidade. Alguém que tem mais polimento, erudição, formalidade.

    O que se espera de uma pessoa culta, seguindo essa definição? Que ela prefira escutar Mozart ou Racionais? Vai assistir Ópera de Verdi ou a novela das oito?

    A norma culta não passa de uma elitização.

    Ela quer mesmo é excluir pessoas que não tiveram acesso à informação e instrução da conversa. Pior que isso, na verdade. Ela afirma que apenas pessoas ‘civilizadas’ podem sentar à mesa para debater, mas podem perceber que a ‘civilidade’ deriva de símbolos definidos por essa elite como superiores. Música clássica é ‘superior’ ao rap porque uma certa elite branca europeia disse assim. Para enaltecer o que era praticado por lá e rejeitar o que vem de “civilizações menores”.

    No caso do Brasil, Portugal virou e disse: esse aqui é o jeito correto de ser e se comportar – até de escrever e falar! E até hoje a gente reproduz um pensamento colonialista quando diminui alguém por não escrever ‘do jeito certo’.

    E eu não acho isso democrático.

    Semana passada eu terminei de ler “Latim em Pó”, livro do professor e linguista Caetano Galindo, que dá aulas na Universidade do Paraná e também é tradutor – ele traduziu uma versão de Ulysses de James Joyce (talvez o livro mais complexo da história) para o português e recebeu até prêmio por isso.

    Em “Latim em Pó”, o professor Galindo passeia pela formação e nuances da língua portuguesa e de outras derivadas do Latim, desafia a norma culta e assegura que a linguagem é um organismo vivo em constante transformação.

    A gente não escreve mais “vossa mercê”, “vosmecê”, porque esse pronome de tratamento evoluiu até chegarmos em “você”. A língua só existe e opera enquanto há pessoas para utilizá-la, e a utilização prevê mudanças, contrações, gírias.

    Se não fosse um organismo vivo, o Dicionário Oxford não elegeria uma nova palavra anualmente como a “Palavra do Ano”.

    Ah, e linguagem também é um conglomerado de palavras que importamos de outros lugares. Então antes de pensar em português correto, lembre-se dos seguintes vocábulos:

    Pipoca? Tupi.
    Carro? Celta.
    Azul? Persa.
    Guerras? Alemão.
    Cafuné? Quimbundo.
    Azar? Árabe.
    Cochilo? Banto.

    Leiam o livro de Caetano Galindo porque ele explica isso e muito mais melhor do que eu jamais serei capaz de fazer.

    Eu só quero passar a ideia de que norma culta é careta, elitista e que a comunicação efetiva é independente dela. O valor da mensagem não se perde enquanto você puder interpretar o contexto.

    E neologismo/regionalismo não serve só pra enaltecer a obra de Guimarães Rosa.


  • Avestruzes e Irresponsáveis

    Avestruzes e Irresponsáveis

    Como um bom millenial que se preze, só sou capaz de concluir tarefas domésticas quando acompanhado de um podcast. O escolhido para lavar a louça hoje foi Avestruz Master, da Rádio Novelo. Por sinal, recomendadíssimo, ainda que eu tenha escutado apenas o primeiro dos quatro episódios já publicados.

    O assunto é o surto das fazendas de avestruz no Brasil no fim do século XX. Para quem não sabe – incluindo eu duas horas atrás -, houve no Brasil um boom de investimento na maior ave do mundo, que provou-se uma gigantesca bolha econômica. Teve gente que viu milhões irem por água abaixo e outros que perderam o pouco que tinham ao arriscarem no animal, que por sinal, é o primeiro selecionável no Jogo do Bicho.

    Mas o texto não é sobre essa história, afinal, tenho certeza que a Rádio Novelo é capaz de contá-la muito melhor do que eu.

    É sobre uma frase específica que eu ouvi durante o podcast. Uma aspa creditada à Manuel Piveta Assunção que, atualmente, é o maior estrutiocultor do país – por sinal, estrutiocultor quer dizer criador de avestruz. Eu também aprendi isso hoje.

    Ele disse:

    “Eu sempre ouvi que empreendedorismo se mede pelo tamanho da irresponsabilidade”.

    Disse o cara que mexeu com uma imensidão de produtos dentro do mercado do agronegócio, foi pioneiro em plantar soja no Sul do país, e tem a maior criação de um bicho que faliu milhares de pessoas no país, mas que lhe rende gordas cifras.

    Por sinal, antes que você fique chocado, eu não sou um conhecedor da vida e obra de Manuel Piveta Assunção, também só fui ouvir falar dele pela primeira vez umas duas horas atrás.

    Mas mexeu comigo essa afirmação.

    Justamente porque ultimamente intensifiquei minha atuação empreendedora na área de produção de conteúdo – o que, à letra fria da lei da vida, me parece uma retumbante irresponsabilidade.

    É um alento perceber que alguém com tino para negócios compartilha da mesma visão de mundo que eu. Paixões também são irresponsáveis, não?

    Aliás, posso dizer que as melhores decisões que tomei nesses 33 anos até aqui foram aquelas que todos disseram: “Nossa, mas você é corajoso”, quando na verdade queriam dizer “Que burrice”.

    Quando mudei de cidade pela primeira vez foi assim. Quando mais tarde mudei de país foi assim. Quando retornei ao Brasil em definitivo porque encontrei o amor… adivinhem? Foi assim.

    E essa é a definição de empreender na minha visão. Arriscar por algo que vale a pena. A vida é curta demais para excesso de responsabilidade. Mesmo que ao final do dia eu não possa esconder minha cabeça debaixo da terra, como um avestruz faria.