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  • Uma noite de tango em Buenos Aires

    Uma noite de tango em Buenos Aires

    Eu admiro a paixão da torcida argentina pela seleção de futebol do país. É um sentimento arraigado, forte, pungente, do qual não sonhamos em passar perto enquanto acompanhamos a Canarinho. Não se trata de vira-latismo. É a simples constatação do óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues.

    O escrete argentino tem uma ligação especial com as arquibancadas do Monumental, de uma forma que nunca almejamos no Brasil. Uma paixão sofredora e irrefreável, que cega e faz pulsar o coração. Um time que sente o calor da arquibancada e o justifica em campo, com sangue, suor e lágrimas.

    Por aqui, um tímido “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” – talvez o pior cântico de torcida já inventado até o presente momento – jamais terá a força da hinchada Albiceleste. Somos torcedores de clubes, não da Seleção.

    Na prévia da partida, brincou-se com dar porrada nos argentinos. E veja bem, com o futebolzinho apresentado pela Seleção de Dorival Júnior, eu já me sentia atormentado pelas declarações do atleta Raphinha.

    Do outro lado estava a atual campeã do mundo, entrosada, embalada, já classificada e com o poder místico do Monumental como décimo segundo jogador.

    O realismo gritava nos meus ouvidos, acusando que, potencialmente, seríamos nós os sacos de pancada.

    Mas eu errei.

    Não teve agressão na bonita noite de Buenos Aires.

    Houve um baile. Ou um tango, que talvez seja o mais culturalmente correto.

    Nem mesmo Carlos Gardel compôs linhas tão melodiosas quanto a linha de passe da equipe azul e branca em 25 de março de 2025.

    Uma elegância imponente, sedutora, envolvente.

    Desiludida pela atuação brasileira, minha mulher recolheu-se ao quarto no intervalo e, como é de praxe das mulheres que amam, perguntou:

    “Não prefere deixar isso para lá e ir deitar comigo”.

    Ora, meu amor… E perder o espetáculo?

    No fim, 4 a 1 para eles, gritos de olé, e um estádio em êxtase.

    Fui dormir chateado? De forma alguma. Além do teatro, a verdade é que ficou barato.

    Ao som de Gardel, a torcida portenha fez um minuto de silêncio pela Verde e Amarela.

    “Adiós Muchachos”.