Qual é o limite ético da Inteligência Artificial? Tem um monte de gente bem mais inteligente do que eu, cujo trabalho é pensar nisso diariamente. No entanto, tenho uma pequena contribuição a fazer para essa discussão: eu acho que, com a memória de quem se foi, não se brinca.
A empresa 2wai, idealizada pelo ator canadense Calum Worthy, oferece um serviço bem peculiar. Eles criam avatares de Inteligência Artificial baseados em seres humanos reais para dialogar com gente de carne e osso. A ideia de produzir avatares artificiais não é exclusividade da 2wai, outras empresas no mercado oferecem serviços parecidos: destaco as plataformas HeyGen e Synthesia.
A novidade da 2wai está no tipo de avatares e no nicho de mercado no qual eles estão pensando em se concentrar. Na semana passada, Worthy publicou em sua conta do Twitter/X uma propaganda a respeito do serviço (que você pode assistir no vídeo abaixo). Durante a peça publicitária, uma mulher gera uma versão digital da sua mãe para uso post mortem.
Ah, você pode se inscrever também no meu canal lá no Youtube
Me siga no Instagram também para ficar por dentro das novidades.
Ou seja, ela criou um avatar da senhora para poder continuar a conversar e construir um relacionamento com a mãe após o óbito. Parece estranho? Calma que piora. A moça que criou o avatar da mãe tem um filho, a quem ela traz para construir uma relação de afeto e intimidade com a versão digital da avó falecida – que ele sequer chegou a conhecer.
Vale ressaltar que o avatar, apesar de recriar a imagem, o tom de voz e os trejeitos físicos da pessoa em que se baseia, não importa da mesma a memória, as lembranças, a intimidade. É uma representação virtual, que apesar de fidedigna em aparência, é incapaz de transmitir os mesmos ideais e sabedoria existentes, e filtra todos os elementos da conversa a partir de uma base de dados pertencente à empresa.
Resumindo: pode acontecer de a versão digital da avó que faleceu reproduzir discursos que jamais seriam proferidos em vida, rivalizar com as crenças e com as ideias da pessoa em que se baseia.
Como dito no vídeo, eu abriria mão de muita coisa para ter mais uma conversa com a minha avó Malvina, que nos deixou há alguns anos. No entanto, apesar de não ser uma pessoa religiosa, eu entendo que há algo sagrado a respeito da memória que nós não deveríamos, enquanto sociedade, profanar.
Se existe um limite moral e ético, isso está em discussão, as linhas são tênues e absolutamente subjetivas, mas o propósito desse aplicativo é onde eu traço a minha linha.











