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  • O limite moral da Inteligência Artificial: respeitem quem já partiu.

    O limite moral da Inteligência Artificial: respeitem quem já partiu.

    Qual é o limite ético da Inteligência Artificial? Tem um monte de gente bem mais inteligente do que eu, cujo trabalho é pensar nisso diariamente. No entanto, tenho uma pequena contribuição a fazer para essa discussão: eu acho que, com a memória de quem se foi, não se brinca.

    A empresa 2wai, idealizada pelo ator canadense Calum Worthy, oferece um serviço bem peculiar. Eles criam avatares de Inteligência Artificial baseados em seres humanos reais para dialogar com gente de carne e osso. A ideia de produzir avatares artificiais não é exclusividade da 2wai, outras empresas no mercado oferecem serviços parecidos: destaco as plataformas HeyGen e Synthesia.

    A novidade da 2wai está no tipo de avatares e no nicho de mercado no qual eles estão pensando em se concentrar. Na semana passada, Worthy publicou em sua conta do Twitter/X uma propaganda a respeito do serviço (que você pode assistir no vídeo abaixo). Durante a peça publicitária, uma mulher gera uma versão digital da sua mãe para uso post mortem.

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    Ou seja, ela criou um avatar da senhora para poder continuar a conversar e construir um relacionamento com a mãe após o óbito. Parece estranho? Calma que piora. A moça que criou o avatar da mãe tem um filho, a quem ela traz para construir uma relação de afeto e intimidade com a versão digital da avó falecida – que ele sequer chegou a conhecer.

    Vale ressaltar que o avatar, apesar de recriar a imagem, o tom de voz e os trejeitos físicos da pessoa em que se baseia, não importa da mesma a memória, as lembranças, a intimidade. É uma representação virtual, que apesar de fidedigna em aparência, é incapaz de transmitir os mesmos ideais e sabedoria existentes, e filtra todos os elementos da conversa a partir de uma base de dados pertencente à empresa.

    Resumindo: pode acontecer de a versão digital da avó que faleceu reproduzir discursos que jamais seriam proferidos em vida, rivalizar com as crenças e com as ideias da pessoa em que se baseia.

    Como dito no vídeo, eu abriria mão de muita coisa para ter mais uma conversa com a minha avó Malvina, que nos deixou há alguns anos. No entanto, apesar de não ser uma pessoa religiosa, eu entendo que há algo sagrado a respeito da memória que nós não deveríamos, enquanto sociedade, profanar.

    Se existe um limite moral e ético, isso está em discussão, as linhas são tênues e absolutamente subjetivas, mas o propósito desse aplicativo é onde eu traço a minha linha.

  • O pedido de casamento perfeito

    O pedido de casamento perfeito

    Eu pedi minha mulher em casamento. Tem vídeo aqui, caso você queira ver.

    Precisamente na data do nosso terceiro aniversário de namoro. 

    Depois de quase três anos morando juntos (o que para mim já significa estar casado, por sinal). 

    Foi simples. Não teve pompa, champagne estourado, viagem pra ilha paradisíaca, ou jantar em restaurante com estrela Michelin. Nada disso.

    O casal de noivos

    Foi na sala de casa. Depois de um jantar que eu mesmo cozinhei. Na nossa intimidade, dentro da nossa rotina, em um espaço seguro.


    Sem serviço de garçom volante, sem ninguém ao redor, sem salva de palmas e olhares de transeuntes.

    Foi nosso. Só nosso. Único, lindo, do nosso jeito.

    E agora, depois de feito o pedido, é fácil falar assim. Não existe profissão mais tranquila do que engenheiro de obra pronta.

    Eu já estava pensando em como faria esse pedido há algum tempo. Amo tanto alguém que quero envolver até o Estado nessa relação, e agora? Como dizer isso de uma maneira memorável?

    Todas as ideias que eu tinha eram descartadas.

    Justamente porque não eram tão pomposas, tão maquiadas e instagramáveis. 

    Eu tive que lutar contra esse pensamento social – emburrecedor, por sinal – de que um pedido de casamento em Mykonos agrega mais valor do que um feito dentro do lar. Um conflito interno real, que resistia.

    Eu não quero pagar de moralista, ou diminuir quem se ajoelha frente à parceira nas Bahamas. Não é essa a ideia.

    Eu acho que é super legal, por sinal. 

    Eu só tive mesmo que lutar contra a ideia de que isso representaria um pedido de casamento perfeito para nós dois.

    Só porque a sociedade imprime que quanto mais dinheiro investido, maior a importância do pedido.

    E aí eu entendi que eu já estava preparado para assumir a responsabilidade de um matrimônio, de constituir uma família com alguém, e que perfeito mesmo é que o pedido seja feito, independente de quantos likes ele vai te gerar na rede social.

    Mas foi uma construção, ou melhor, uma reconstrução de pensamento que me levou a isso. Porque eu tenho essa mania de idealizar cenários a ponto de torná-los inalcançáveis. Inatingíveis. Sempre aumentando um ponto ao conto. Não basta ser em Bora Bora. Tem que ser lá, com show particular do Caetano Veloso, chegada de barco guiada por golfinhos e aliança entregue por um par de unicórnios albinos gêmeos.

    O irrealizável se transforma em procrastinação e ansiedade. É um modus operandi familiar e adoecido. 

    E burro, gente. Burro mesmo.

    E esse é o tipo de coisa que a gente só percebe depois. Quando se decide entregar o perfeito possível, que na verdade não era perfeito, até se tornar.

    Porque eu tenho certeza que meu pedido de casamento foi único, emocionante, memorável e que vai acompanhar as nossas lembranças para sempre. Vamos contar para filhos e netos, daquela vez que mamãe sentou na rede e papai mostrou um vídeo com uma serenata mal cantada – e vamos rir, nos emocionar.

    Porque o mais importante ali era o amor. É o amor. Que, diga-se, muitas vezes não está presente em pedidos transatlânticos, com tapetes vermelhos e um orçamento hollywoodiano.

    Não há nada mais extraordinário do que um homem comum construindo uma família comum.

  • Avestruzes e Irresponsáveis

    Avestruzes e Irresponsáveis

    Como um bom millenial que se preze, só sou capaz de concluir tarefas domésticas quando acompanhado de um podcast. O escolhido para lavar a louça hoje foi Avestruz Master, da Rádio Novelo. Por sinal, recomendadíssimo, ainda que eu tenha escutado apenas o primeiro dos quatro episódios já publicados.

    O assunto é o surto das fazendas de avestruz no Brasil no fim do século XX. Para quem não sabe – incluindo eu duas horas atrás -, houve no Brasil um boom de investimento na maior ave do mundo, que provou-se uma gigantesca bolha econômica. Teve gente que viu milhões irem por água abaixo e outros que perderam o pouco que tinham ao arriscarem no animal, que por sinal, é o primeiro selecionável no Jogo do Bicho.

    Mas o texto não é sobre essa história, afinal, tenho certeza que a Rádio Novelo é capaz de contá-la muito melhor do que eu.

    É sobre uma frase específica que eu ouvi durante o podcast. Uma aspa creditada à Manuel Piveta Assunção que, atualmente, é o maior estrutiocultor do país – por sinal, estrutiocultor quer dizer criador de avestruz. Eu também aprendi isso hoje.

    Ele disse:

    “Eu sempre ouvi que empreendedorismo se mede pelo tamanho da irresponsabilidade”.

    Disse o cara que mexeu com uma imensidão de produtos dentro do mercado do agronegócio, foi pioneiro em plantar soja no Sul do país, e tem a maior criação de um bicho que faliu milhares de pessoas no país, mas que lhe rende gordas cifras.

    Por sinal, antes que você fique chocado, eu não sou um conhecedor da vida e obra de Manuel Piveta Assunção, também só fui ouvir falar dele pela primeira vez umas duas horas atrás.

    Mas mexeu comigo essa afirmação.

    Justamente porque ultimamente intensifiquei minha atuação empreendedora na área de produção de conteúdo – o que, à letra fria da lei da vida, me parece uma retumbante irresponsabilidade.

    É um alento perceber que alguém com tino para negócios compartilha da mesma visão de mundo que eu. Paixões também são irresponsáveis, não?

    Aliás, posso dizer que as melhores decisões que tomei nesses 33 anos até aqui foram aquelas que todos disseram: “Nossa, mas você é corajoso”, quando na verdade queriam dizer “Que burrice”.

    Quando mudei de cidade pela primeira vez foi assim. Quando mais tarde mudei de país foi assim. Quando retornei ao Brasil em definitivo porque encontrei o amor… adivinhem? Foi assim.

    E essa é a definição de empreender na minha visão. Arriscar por algo que vale a pena. A vida é curta demais para excesso de responsabilidade. Mesmo que ao final do dia eu não possa esconder minha cabeça debaixo da terra, como um avestruz faria.

  • Uma noite de tango em Buenos Aires

    Uma noite de tango em Buenos Aires

    Eu admiro a paixão da torcida argentina pela seleção de futebol do país. É um sentimento arraigado, forte, pungente, do qual não sonhamos em passar perto enquanto acompanhamos a Canarinho. Não se trata de vira-latismo. É a simples constatação do óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues.

    O escrete argentino tem uma ligação especial com as arquibancadas do Monumental, de uma forma que nunca almejamos no Brasil. Uma paixão sofredora e irrefreável, que cega e faz pulsar o coração. Um time que sente o calor da arquibancada e o justifica em campo, com sangue, suor e lágrimas.

    Por aqui, um tímido “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” – talvez o pior cântico de torcida já inventado até o presente momento – jamais terá a força da hinchada Albiceleste. Somos torcedores de clubes, não da Seleção.

    Na prévia da partida, brincou-se com dar porrada nos argentinos. E veja bem, com o futebolzinho apresentado pela Seleção de Dorival Júnior, eu já me sentia atormentado pelas declarações do atleta Raphinha.

    Do outro lado estava a atual campeã do mundo, entrosada, embalada, já classificada e com o poder místico do Monumental como décimo segundo jogador.

    O realismo gritava nos meus ouvidos, acusando que, potencialmente, seríamos nós os sacos de pancada.

    Mas eu errei.

    Não teve agressão na bonita noite de Buenos Aires.

    Houve um baile. Ou um tango, que talvez seja o mais culturalmente correto.

    Nem mesmo Carlos Gardel compôs linhas tão melodiosas quanto a linha de passe da equipe azul e branca em 25 de março de 2025.

    Uma elegância imponente, sedutora, envolvente.

    Desiludida pela atuação brasileira, minha mulher recolheu-se ao quarto no intervalo e, como é de praxe das mulheres que amam, perguntou:

    “Não prefere deixar isso para lá e ir deitar comigo”.

    Ora, meu amor… E perder o espetáculo?

    No fim, 4 a 1 para eles, gritos de olé, e um estádio em êxtase.

    Fui dormir chateado? De forma alguma. Além do teatro, a verdade é que ficou barato.

    Ao som de Gardel, a torcida portenha fez um minuto de silêncio pela Verde e Amarela.

    “Adiós Muchachos”.

  • Ligamentos partidos

    Ligamentos partidos

    Eu rompi parcialmente um ligamento no tornozelo direito.

    Sim, eu sei que pode não parecer a informação mais relevante do mundo, mas justifica a minha ausência nas páginas deste blog.

    Você pode pensar rapidamente: mas Daniel, por que uma lesãozinha no pé te privou de escrever sentado, em um teclado, com os dedos e com a mente que seguem intocados pelo exame de imagem?

    A resposta é que eu não sei direito. De verdade.

    E talvez seja porque eu consegui uma desculpa para parar de fazer, para evitar isso aqui, porque eu tenho receio de fracassar. Porque eu tenho medo que não vá pra frente.

    Porque eu sou um covarde.

    E por eu ser um covarde, justamente, é que não vai pra frente.

    Veja bem, é sim uma merda não conseguir pisar no chão, não poder praticar meus esportes favoritos, engordar, utilizar cigarro como ferramenta de controle de ansiedade.

    Tudo isso é horroroso e sim, esses acontecimentos são consequência de um ligamento parcialmente rompido.

    Só que o meu coitadismo, a minha falta de vontade de fazer as coisas e deixar de lado minhas iniciativas são sintomas que se escoram em uma mera inconveniência física.

    Portanto, dizer que não escrevi porque meu pé estava doendo, como você bem apontou, não faz sentido.

    E chega daquele papo de “e tá tudo bem”. “Tem dias que o seu máximo é o menor esforço possível”.

    É um papo derrotista!

    Não tá tudo bem. Precisa mudar! E vai.

    Nem o ligamento teve competência para romper-se por completo.

    Mas pode deixar… as palavras que eu reprimi estão afiadas, e loucas pra voltarem ao papel.

  • Bethânia e Malvina

    Bethânia e Malvina

    A louça estava suja na pia e não iria se lavar sozinha.

    Houve uma época na minha vida na qual eu detestava essa atividade, do fundo do meu âmago. Aí, sei lá, acho que a vida adulta só acontece, e você acaba superando o ódio na insistência.

    Nada como um podcast para ver os pratos diminuírem exponencialmente na pia. Eu posso jurar que ouço centenas de podcasts diferentes, mas em janeiro, parece que todos eles resolveram sair de férias juntos.

    Eu não podia tirar férias da louça suja.

    Então coloquei as músicas que eu curti no Spotify para tocar no modo aleatório. A chance de tocar MPB é grande, já que a maioria do meu repertório musical está concentrado nas brasilidades.

    Tocou Gil. Tocou Gal. Mas faltaram as outras vogais.

    Aí entrou aquela voz que é impossível de não reconhecer. Acho que mesmo se eu ficar surdo, ainda será possível distinguir a voz de Bethânia das demais.

    “Ai, ai, saudade
    Saudade dela
    Ela se foi, saudade
    Fiquei sem ela, oh”.

    Nos últimos cinco anos, sempre que essa música toca, eu derramo algumas lágrimas. Ela me lembra da minha avó Malvina. Não temos nenhuma história conjunta que envolva essa canção específica, ou a filha da Dona Canô.

    Mas quando minha avó morreu, no começo da pandemia, eu passei a escutar a música repetidamente. E passou a fazer parte de um elo póstumo entre avó e neto.

    No começo, o choro era de soluçar. Com o tempo e os anos transcorridos, transformou-se em uma ou duas lágrimas que teimavam em escorrer tristes pelo meu rosto.

    Hoje foi diferente. Com uma vasilha suja de iogurte na mão esquerda e a esponja coberta de detergente na direita, os versos na voz de Bethânia não provocaram as corriqueiras lágrimas.

    Parei por um momento, refleti. Abri um sorriso no canto da boca. Pela primeira vez em cinco anos, Saudade Dela não soou triste – foi nostalgia.

    Uma lembrança gostosa, um menino indo com a avó até a aula de teatro.

    A vida te ensina que é possível amar até lavando a louça.