Category: Gringo

  • O limite moral da Inteligência Artificial: respeitem quem já partiu.

    O limite moral da Inteligência Artificial: respeitem quem já partiu.

    Qual é o limite ético da Inteligência Artificial? Tem um monte de gente bem mais inteligente do que eu, cujo trabalho é pensar nisso diariamente. No entanto, tenho uma pequena contribuição a fazer para essa discussão: eu acho que, com a memória de quem se foi, não se brinca.

    A empresa 2wai, idealizada pelo ator canadense Calum Worthy, oferece um serviço bem peculiar. Eles criam avatares de Inteligência Artificial baseados em seres humanos reais para dialogar com gente de carne e osso. A ideia de produzir avatares artificiais não é exclusividade da 2wai, outras empresas no mercado oferecem serviços parecidos: destaco as plataformas HeyGen e Synthesia.

    A novidade da 2wai está no tipo de avatares e no nicho de mercado no qual eles estão pensando em se concentrar. Na semana passada, Worthy publicou em sua conta do Twitter/X uma propaganda a respeito do serviço (que você pode assistir no vídeo abaixo). Durante a peça publicitária, uma mulher gera uma versão digital da sua mãe para uso post mortem.

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    Ou seja, ela criou um avatar da senhora para poder continuar a conversar e construir um relacionamento com a mãe após o óbito. Parece estranho? Calma que piora. A moça que criou o avatar da mãe tem um filho, a quem ela traz para construir uma relação de afeto e intimidade com a versão digital da avó falecida – que ele sequer chegou a conhecer.

    Vale ressaltar que o avatar, apesar de recriar a imagem, o tom de voz e os trejeitos físicos da pessoa em que se baseia, não importa da mesma a memória, as lembranças, a intimidade. É uma representação virtual, que apesar de fidedigna em aparência, é incapaz de transmitir os mesmos ideais e sabedoria existentes, e filtra todos os elementos da conversa a partir de uma base de dados pertencente à empresa.

    Resumindo: pode acontecer de a versão digital da avó que faleceu reproduzir discursos que jamais seriam proferidos em vida, rivalizar com as crenças e com as ideias da pessoa em que se baseia.

    Como dito no vídeo, eu abriria mão de muita coisa para ter mais uma conversa com a minha avó Malvina, que nos deixou há alguns anos. No entanto, apesar de não ser uma pessoa religiosa, eu entendo que há algo sagrado a respeito da memória que nós não deveríamos, enquanto sociedade, profanar.

    Se existe um limite moral e ético, isso está em discussão, as linhas são tênues e absolutamente subjetivas, mas o propósito desse aplicativo é onde eu traço a minha linha.

  • Uma visita incômoda ao passado

    Uma visita incômoda ao passado

    A série Adolescência, da Netflix, está no topo das paradas. É atualmente a produção mais vista na gigante do streaming no Brasil. Eu não sabia nada a respeito dela, até assistir a uma reportagem do Pedro Dória e da Cora Rónai, do Canal Meio, a respeito do tema. Na verdade, não vi o vídeo, apenas a chamada e me interessei.

    No mesmo dia, liguei a tv e fui direto ao título. São apenas 4 episódios, então decidi por terminar tudo em apenas uma sentada. Foi duro. É sobre um adolescente de 13 anos, suspeito de matar uma menina com quem estudava na escola, e as consequências geradas para ele, os amigos e a família.

    Jamie, personagem principal e suspeito de assassinato, com o pai na delegacia

    Todos os quatro episódios são gravados em plano-sequência – para quem não conhece o termo, plano-sequência é quando não há corte de edição. A câmera segue as personagens continuamente, sem que a cena se altere. É algo muito difícil de se alcançar tecnicamente. Em 4 episódios de 1 hora cada, então, é de uma minúcia impressionante.

    Mas sim, sobre a série… Ela te deixa engasgado com alguns temas: bullying, segurança digital, alienação parental e a simples e inquestionável maldade humana – que por incrível que pareça, consegue ser mais forte entre crianças e adolescentes do que entre adultos.

    Entre os 4 episódios, o terceiro para mim é o melhor de todos. Nele, uma jovem psicóloga tem uma sessão com o menino, suspeito de assassinato. Não vou revelar o conteúdo das conversas, mas é impressionante o quão fundo consegue-se ir dentro das fraquezas e inseguranças da criança, a ponto de se extrair todo o contexto e deixar a trama cristalina nas motivações. É cru. É tão humano, mas paradoxalmente, tão animalesco.

    O terceiro episódio vale por todos os outros. É fantástico.

    Eu gostei da série em geral, mas esse episódio vale mais do que todos os outros.

    Agora, o que mais me espanta, enquanto enxergo em retrospecto, é que poderia ter sido eu.

    Há duas décadas, com os mesmos 13 anos do protagonista, eu vivi a pior fase da minha vida. Nenhum desafio da vida adulta me proporcionou uma angústia tão recorrente e profunda quanto a rotina na sétima série do colégio.

    Eu não tinha muitos amigos na escola e calhou que a turminha com quem eu andava debandou para outras instituições de ensino. O bullying já existia, mas havia uma rede de apoio, na qual existia suporte e motivação, gente com quem andar no recreio e, portanto, conseguíamos construir uma redoma ao nosso redor, contra os valentões. Um grupo de desajustados lutando contra o sistema.

    Como eu disse, a rede de apoio se desfez. E, de repente, eu me encontrei sozinho para lidar com o problema.

    Vale ressaltar que à época eu estava visivelmente acima do peso e, provavelmente, fui o último de toda a série a atravessar a puberdade. Ou seja, com 13 anos eram todos uns semi-adultos intimidadores, enquanto eu era um gordinho com cara de criança, menor, mais fraco e com vozinha fina de taquara rachada.

    Para coroar, também usava aparelho fixo nos dentes, visto que minha arcada dentária, além de torta, contava também com protuberantes dentes incisivos, que me impediam de fechar os lábios por completo.

    Começaram por me chamar de Coelho, depois de Cenoura – por último, Noura. Um apelido nada carinhoso.

    E todos os dias da minha vida durante a sétima série, eu fui constantemente lembrado dos meus defeitos, da minha solidão e da falta de amigos.

    Todos os dias.

    Com terror psicológico, com abusos diários, com xingamentos, e em geral com uma covardia ímpar por parte dos meus algozes, que eram três ou quatro, mas um em especial. Todos maiores e mais fortes do que eu. Nenhum sinal de pena, nenhum sinal de remorso, ou de compaixão.

    Não sou capaz de reproduzir o discurso deles aqui, de tão imoral, baixo e violento.

    Eu chorava em segredo todos os dias.

    Chorava porque tinha medo do que poderiam fazer comigo e pela certeza da impunidade que os acompanhava.

    Então eu aguentei calado. Na verdade, eu tentava ser agradável com essas pessoas, ajudá-los quando necessitavam, oferecer uma mão nas matérias em que eu ia bem. Eu achava que poderia desconstruir o bullying, caso provasse minha utilidade, ou minha camaradagem. Eu nutria essa esperança em vão. Evidentemente, eles apenas se aproveitavam brevemente da minha ajuda enquanto ela os beneficiava, antes que voltassem ao massacre.

    Eu chegava em casa e me isolava. Passava horas no computador jogando Counter-Strike. Os únicos amigos que eu tinha aos 13 anos estavam on-line em outras partes do país.

    E eu tive sorte, essa é a verdade. Sim, tem uma questão da minha própria personalidade: razoável, ponderada, pouco belicista. Mas eu fui afortunado porque não estive exposto a nenhuma influência ruim, ninguém que me convencesse a fazer o mal. Um menino de 13 anos que se sente abandonado é altamente influenciável, ele precisa se sentir querido, achar que faz parte de algo.

    Hoje a situação na internet é muito mais perigosa que na minha época. Uma máquina de moer sentimentos e transformar crianças marginalizadas em pessoas perigosas, misóginas, sociopatas, assassinas em série.

    Neste campo, eu tive sorte.

    A injustificável maldade dos meus colegas de classe não se dissipava, e eu ia acumulando essa dor dentro de mim todos os dias. Até que um dia, em casa, após ser pressionado pela minha mãe – acho que por conta da minha queda de performance nas aulas, refletida no boletim -, eu explodi.

    Eu contei tudo.

    Avisada, a coordenação entrou em tom de repressão nas salas de aula, e a situação se amenizou por uma, talvez duas semanas. Mas depois voltou. E eu precisei lidar com isso até o final da sétima série.

    Na oitava, o pior dos babacas saiu de lá. E depois, perto dos 16 anos, eu já havia mudado, atravessado a puberdade e encontrado minha turma de amigos fora da escola, muitos dos quais me acompanham até hoje.

    Eu olho para trás e penso em como eu gostaria de ter me comportado de outra maneira diante daquela situação. Ter me imposto, batido de frente, mostrado agressividade.

    Mas não foi o caso. Eu ia como uma ovelha para o abate todos os dias. Rezando para que aquele dia fosse o último, que meu sofrimento acabasse. Eu perguntava aos céus por que, entre todas as pessoas, eu que precisava passar por aquela penitência.

    Hoje não tenho mais raiva deles. Mas tenho curiosidade para entender o motivo do ódio que nutriam por mim. Porque não pode ser explicado de outra forma. Era ódio e, ao meu ver, injustificável.

    Também não sou hipócrita a ponto de dizer que espero que eles estejam felizes, que tenham aprendido com a vida, e que está tudo no passado. Não. Deles não quero e nem espero nada.

    Eu herdei algumas características desse período. Alguma boas, outras más. Por exemplo, eu não me calo mais quando estou incomodado, e bati de frente quando me senti desrespeitado em diversas ocasiões, tenho uma tendência a proteger pessoas quando acho que são tratadas injustamente.

    Por outro lado, há um senso de autossabotagem, desconfiança nas pessoas e necessidade de aprovação externa que me acompanham até hoje – e acredito que estão de alguma forma ligados direta ou indiretamente a esse trauma.

    Apesar dos pesares, gosto de acreditar que me transformei em um ser humano decente.

    A série Adolescência trouxe à superfície uma série de questões que hibernavam em mim. E sabe o que é pior? Não acredito que exista remédio para o bullying, ou forma de contenção.

    As escolas continuarão a desenvolver palestras e seminários, mas nunca vão cortar o mal pela raíz. Sendo sincero, não sei nem quais mecanismos poderiam utilizar para isso. Seja por questão pedagógica ou financeira, a intervenção vai apenas até a página dois.

    Professores não têm controle total sobre a ação dos alunos, e também não se pode exigir que a pobre Dona Rosângela, professora de português de 58 anos, possa ter qualquer tipo de capacidade em amenizar uma situação dessas.

    A formação do indivíduo parte de casa. Não é papel da escola, mas os pais podem se esforçar em proteger e educar os filhos, e não cometer nenhum erro proposital. Só que a influência deles não alcança todos os campos. Crianças e adolescentes, como já disse antes, são particularmente cruéis. Criam as próprias castas e mecanismos de poder.

    Não sei muito bem como encerrar o texto.

    Sinto que apenas vomitei verborragicamente sentimentos reprimidos no meu peito. Acho que exigiu certa coragem em expôr um evento do qual eu gostaria de não ter lembrança alguma.

    Enfim, se você leu o relato inteiro, eu só gostaria de agradecê-lo pelo ombro amigo.

    Para fechar com um grau de positividade, é bom lembrar que por pior que a situação seja, tudo sempre passa.

    E pode não parecer na hora, mas a experiência nos fortalece para o futuro.

    Olhem por seus filhos, amigos e pessoas queridas sempre.

  • A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan

    A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan

    Você já ouviu falar em Deja Vu?

    O livro A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan, me proporcionou um acontecimento único até aqui na minha vida.

    Foi um dos livros que eu adicionei à lista de leituras desejadas para o ano – e isso pode não soar muito relevante, mas as publicações que adentraram esse hall foram devidamente pesquisadas a respeito. Leram-se sinopses e mais sinopses. Não sou o tipo de pessoa que adiciona um livro à estante sem nenhuma informação a respeito dele.

    Tá, e por que essa informação é importante? Imagino que você esteja se perguntando…

    Porque apesar de atravessar essa minuciosa triagem, ainda na metade do primeiro capítulo, A Visita Cruel do Tempo, começou a transmitir uma angústia que eu não conseguia explicar bem. Era familiar demais, quase como se eu já tivesse passado por aquilo antes. Um deja vu literário. Eu precisei de mais um capítulo para que a ficha caísse por completo:

    Caramba, eu já li esse livro antes. Mas eu não me lembro.

    Mesmo depois da pesquisa e das sinopses, eu não percebi. Seria uma leitura repetida. E quando dei por mim, a angústia crescia a cada página que eu virava. Eu conheço essas pessoas, apesar de não conhecê-las mais. E a memória não se restaurava, ou seja, eu tinha certeza absoluta que já havia passado por aquela história antes, mas não tinha ideia de qual seria o desfecho.

    Devo confessar que isso impactou na minha boa vontade com o livro. Afinal, uma obra que eu não recordo de ler, nem mesmo sou capaz de lembrar do título na capa, invariavelmente só pode ter me proporcionado uma experiência apagável, indiferente, sem marcas.

    E sabe de uma coisa? Que bom que eu continuei lendo. Porque foi uma lição de humildade.

    Jennifer Egan vai e volta na cronologia dos personagens durante a obra, mas foi o capítulo 10 que me pegou de jeito. Até o décimo capítulo, sinto que imperava meu desprazer em reler algo varrido para as gavetas mais escusas da minha mente. Mas no capítulo 10, meus amigos. Ah, no capítulo 10…

    Foi como se eu estivesse lendo pela primeira vez – não o livro, mas na vida. Porque uma coisa é avançar linhas em uma página, outra é sentir profundamente a dor de alguém. E eu senti a dor de Rob no décimo capítulo. O único que conta a história dele. E eu entendi Rob. E eu empatizei com Rob, apesar de não compartilhar dos mesmos problemas que ele.

    Sabe, Rob me mostrou que mesmo um livro já lido, mesmo um esquecido, pode proporcionar algo belo.

    Se o título é A Visita Cruel do Tempo, não há como não traçar um paralelo com ideais heraclitianos de homens e rios que nunca são os mesmos. Dez anos depois, um Daniel diferente pegou um livro que já lera, mas a experiência transformou o livro em algo novo.

    Pelo menos do décimo capítulo em diante.

    É difícil para mim atribuir uma nota justa ao livro. Ele mexeu com meus sentimentos positivamente e negativamente. Mas se você quiser uma visão menos enviesada que a minha, talvez você deva considerar a dos jurados do Prêmio Pullitzer – que premiaram a obra em 2011.

    É sobre rock’n’roll, sobre definhar enquanto humanos, mas também sobre redenções. Talvez principalmente sobre redenções. Porque um momento da nossa existência não nos define, tampouco escolhas erradas, ou a profissão que escolhemos, os parceiros com quem vivemos, nada disso. O tempo é cruel e ele é o que nos transforma: e só pára quando o último ponteiro passa da meia-noite.

    Nota 4/5, mas leve com uma pitada de sal.

  • Os sete maridos de Evelyn Hugo, por Taylor Jenkins Reed

    Os sete maridos de Evelyn Hugo, por Taylor Jenkins Reed

    Os sete maridos de Evelyn Hugo, da autora Taylor Jenkins Reed, bebe da mesma fonte de O Diabo veste Prada. Seguem os mesmos passos para fermentar o bolo que guia a narrativa. Vamos lá, para essa receita você vai precisar de:

    • Uma moça inexperiente, doce e ingênua – com muito potencial -, que irá evoluir e amadurecer ao longo da trama. Ah… e que precisa se recuperar de um término de relacionamento também;
    • Uma protagonista forte, imponente, temida, e mundialmente reconhecida, que resolve dar à moça ingênua uma grande chance na vida;
    • Doses generosas de drama;
    • Uma pitada de sarcasmo;

    Junte todos os ingredientes, bata bem, leve ao forno. E tá pronto.

    Miranda Priestly (O Diabo Veste Prada) e Evelyn Hugo reservam certas semelhanças

    Por mais que a construção não seja ultra original, o livro me agradou enquanto passatempo. A leitura é fluida e as páginas passam rápido.

    Não é só glamour. Aborda temas importantes e duros, como violência contra a mulher, machismo, homofobia e eutanásia. Mesmo assim, o faz sem perder a leveza na retórica – e isso é difícil de se alcançar.

    A sinopse

    Monique Grant, de 35 anos, é jornalista júnor na famosa revista Vivant, mas não tem uma trajetória profissional muito digna de nota, e sente-se invisibilizada. Nas primeiras páginas do livro, Monique é chamada pela editora da Vivant, Frankie, para uma conversa séria a sós.

    A lendária atriz Evelyn Hugo, quase octogenária, fará um leilão beneficiente em homenagem à filha Connor, recém falecida, vítima de câncer de mama. A assessoria de Evelyn entrou em contato com a revista para uma entrevista exclusiva, mas sob uma condição: que a pauta seja conduzida por Monique.

    Não faz sentido. Monique é uma zé ninguém. Evelyn Hugo é uma diva que moldou a história de Hollywood. Aparentemente não há conexão nenhuma entre elas.

    Então, sob olhares suspeitos da chefia, a repórter é escalada para a exclusiva. Ao chegar na suntuosa mansão de Hugo, Monique descobre que ganhou muito mais que uma matéria de capa para a Vivant. Ela foi escolhida a dedo pela estrela das telonas para ser a escritora de uma biografia autorizada, que valerá milhões em direitos.

    Um evento que mudará para sempre a carreira de Monique.

    Evelyn Hugo, a femme fatale de Hollywood.

    Os sete maridos

    O trampolim. O agressor. O astro de rock. O melhor amigo. O arrogante. E por aí vai…

    Evelyn Hugo casou-se tantas vezes, mas quase nenhuma delas por amor. O livro se organiza de forma que cada capítulo é um marido, para contar a história de ascenção de uma latina, descendente de cubanos, que pinta o cabelo e disfarça a origem para brilhar nos cinemas e se tornar uma das principais femme fatales de Hollywood.

    Eles que foram maridos dela. Ela não foi mulher de nenhum deles – já que o amor da vida de Hugo não estava entre os sete – mas isso já é spoiler.

    A platônica relação com Harry Cameron e o começo da trajetória com Celia St. James são os pontos altos da narrativa.

    O final

    Eu costumo ser alheio a plot twists. Normalmente, já conjecturei tantas possibilidades na minha cabeça que acabo acertando o desenrolar do enredo, por tentativa e erro. Às vezes é óbvio o que vai acontecer, outras vezes nem tanto. Mas em Os sete maridos de Evelyn Hugo, o final me pegou de surpresa. Uma raridade.

    Nenhuma das possibilidades que aviltei entre Evelyn e a razão para exigir que Monique fosse a escritora da biografia se provaram corretas.

    No entanto, existe a intenção de criar uma relação de ódio entre a escritora e o objeto de escrita nas últimas páginas, que não me pareceu forte o suficiente.

    Conclusão

    Acaba que Os sete maridos de Evelyn Hugo é um tanto paradoxal, pois consegue ser surpreendente e previsível ao mesmo tempo no desfecho. Segue uma fórmula pronta, apesar de trazer elementos necessários e interessantes. A narrativa perdoa agressor, o que não é algo que eu curta, mas entendo as razões dentro da trama.

    Eu sinto que foi uma leitura que me prendeu, mas não me marcou. 4/5.

    Ah, vai virar filme…

  • Gente Ansiosa, de Fredrick Backman

    Gente Ansiosa, de Fredrick Backman

    A empatia em forma de livro, uma ficção assustadoramente real


    Há meses eu me encontrava consumido, exclusivamente, pela vontade de ler não-ficção. Não teci nenhum contraponto a essa vontade, e marginalizada deixei a fantasia indefinidamente. No entanto, por mais que se lute contra, dentro de mim habita um serzinho ávido por explorar a vastidão da capacidade de abstração, presente apenas nos livros ficcionais. Curiosamente, resolvi voltar ao inventado com uma história que, apesar da narrativa fantástica, transborda humanidade pelas linhas. 


    Gente Ansiosa. É impossível um millennial como eu não se sentir atraído pelo título da obra escrita pelo sueco Fredrik Backman. É um nome que te pega pelo pulso e incita a curiosidade, dado o mal-estar geracional. Afinal, gente ansiosa? Esse cara está escrevendo sobre mim! – aliás, talvez sobre qualquer pessoa na contemporaneidade. 

    Pesquisei rapidamente sobre o autor e descobri que ele também é o responsável por Um homem chamado Ove, que virou filme no país escandinavo, antes de ser adaptado pelos estadunidenses, que preferiram mudar o nome do protagonista para Um cara chamado Otto (também traduzido como “O pior vizinho do mundo”), estrelando ninguém menos que Tom Hanks. Eu assisti à versão yankee (sem saber a origem da trama) e gostei.

    Um homem chamado Ove/Otto

    Fui convencido e, portanto, Gente Ansiosa tornou-se a porta de entrada – ou melhor, de retorno – à ficção.

    Não sei muito bem como classificá-la. Talvez seja um romance policial, apesar de não ser muito bem um romance policial, só que fica difícil não chamar de romance policial um enredo que tem como palco um assalto a banco e uma situação de reféns presos dentro de um apartamento aberto para visitação. Na falha em colocar a obra em uma caixinha, deixo aqui a descrição do próprio Backman:

    “Esta história fala de muitas coisas, mas sobretudo de idiotas”. Mais uma vez me identifiquei, pois além de ansioso, também tenho vocação latente para a idiotice sete dias na semana. 

    Durante os primeiros parágrafos, fui obrigado a concordar com o autor. Todas as personagens: o assaltante, os oito reféns, os dois policiais, a “galera de Estocolmo”, todos um bando de idiotas. Mas conforme se avança na trama, percebe-se que na verdade a idiotice é arma da desinformação, pois enquanto o autor destrincha o perfil e as motivações de cada, estabelece contextos e propõe histórias densas e repletas de individualidade a cada ser envolvido ali, vão todos se desiotizando.

    De repente toma-se um susto, pois não resta um idiota sequer, apenas pessoas complexas, com bagagens emocionais que não conhecíamos. Por fim, é fácil de se relacionar com cada uma das personagens, viver das dores e compartilhar das razões que as levam a comportamentos esdrúxulos. Inclusive, isso acontece entre as próprias personagens, que criam laços perenes a partir das experiências compartilhadas.

    Talvez por conta da minha ansiedade, com medo do futuro, eu rezava para que as linhas de Gente Ansiosa jamais terminassem. É um relato comovente sobre o amor em múltiplas formas, sobre tristeza, sobre culpa, sobre depressão e a vida que se desembrulha tortuosa a cada dia que passa.

    É, sobretudo, um lembrete: não fazemos ideia da dor alheia. A empatia em forma de livro, uma ficção assustadoramente real.

    Por sinal, depois que concluí a leitura, descobri que lançaram uma série na Netflix baseada no livro em 2021. Não acho que eu vá assistir, mas fica a dica, caso você se interesse.

  • Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl.

    Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl.

    Sobreviventes e Desistentes: um paralelo entre prisioneiros de Auschwitz e minha avó Malvina.

    Não se deixe iludir pelo título do livro. Em Busca de Sentido passa muito longe dos manuais de autoajuda que hoje existem.

    Em um livre jogo de associação, a palavra “psicanálise” te faz lembrar de algum lugar no planeta Terra? Provavelmente a sala do terapeuta. Mas tem uma cidade no mundo que estabelece uma correlação direta com essa ciência: Viena. A capital austríaca tem dois produtos de tipo exportação: músicos clássicos e psicanalistas.

    Sigmund Freud, que está para a mente humana assim como Mozart está para os acordes do piano, é o nome mais famoso dessa corrente médica. Não a toa é reconhecido como o “Pai da Psicanálise”. Freud é Vienense, mas não é o único psicanalista expoente que veio de lá – assim como Mozart não é o único musicista.

    Alfred Adler, fundador da escola de psicologia individual, também deu origem à prática médica na capital europeia. A linha adleriana defende o conceito de que a personalidade é única, intransferível e indivisível. Diferente de Freud, Adler acredita que estudar o indivíduo e o que o constitui é o primeiro passo antes de entendê-lo no contexto social.

    Mais novo e menos conhecido que os dois nomes citados, o Dr. Viktor Frankl é o “criador” da Logoterapia, conhecida também como a terceira escola vienense de psicoterapia (freudiana e adleriana são as duas primeiras). A logoterapia é focada em utilizar a exploração do sentido de vida enquanto principal objetivo para o tratamento dos pacientes.

    Viktor Frankl, pai da logoterapia e autor de Em Busca de Sentido



    O Dr. Frankl (1905-1997) publicou mais de 30 livros ao longo de vasta trajetória profissional. Curiosamente, o mais famoso de todos, Em Busca de Sentido, foi concebido pelo autor com a intenção de ser publicado anonimamente – mas Frankl foi convencido do contrário por amigos próximos e assina a obra atemporal. Tive o “prazer” de ler a obra. Assim, entre aspas, pois é difícil categorizar como prazerosa uma leitura que trata da vida em campos de concentração. É um retrato autobiográfico sobre um prisioneiro que viveu os dias de horror nazista – no caso, o Dr. Frankl esteve em Auschwitz e outros quatro campos menores.

    Os assuntos Segunda Guerra Mundial e Holocausto exercem um fascínio lúgubre sobre mim desde que tenho idade para compreendê-los minimamente. Há pelo menos duas décadas sou ávido consumidor de obras – ficcionais ou não – que retratem o período. De “É isto um homem” de Primo Levi a “Maus” de Art Spiegelman; passando por pianistas, meninos de pijamas listrados, meninas que roubavam livros e listas de Schindler. Relatos crus e viscerais, ou realismo fantástico Tarantinesco.

    Auschwitz, o mais famoso campo de concentração nazista.

    Dito isso, estou vacinado – se é que há a possibilidade para tal – contra a dureza dos relatos da tão escabrosa história, tão recente história. Ainda assim, a experiência vivida nas palavras do Dr. Frankl foi absolutamente inédita. É o relato mais puro e avassalador que já li sobre o tema.

    O criador da logoterapia, à época um psicólogo no campo de concentração, é capaz de ilustrar com assertividade a vida sob o domínio nazista, sob a ótica do prisioneiro médio, sem recorrer a pontos fora da curva ou histórias notáveis e jornadas do heroi. Apenas como a cabeça de gente comum funcionava diante da perturbadora realidade desumanizante.

    Seguidamente me vi embasbacado pelas palavras de Viktor Frankl.

    Segundo ele, alguém que não viveu essa realidade é incapaz de compreender a violenta luta diária pela sobrevivência. A começar pela forçada seleção “darwinista” imposta pelos nazistas, tantas e tantas vezes. Ser escolhido para o lado bom significava trabalho escravo forçado. O lado ruim representava sair pela chaminé dos crematórios. Seleções eram corriqueiras, sendo necessário certo grau de bestialidade e brutalismo para consistentemente se ver selecionado para o “lado bom”. Uma dose de egoísmo até. Nas palavras de Frankl, os melhores e mais modestos não sobreviveram.

    Survival of the fittest.

    Seleção nazista durante a chegada de prisioneiros ao campo, já na saída dos trens.


    A tremenda luta por viver encontra, paradoxalmente, enorme apatia, diante do processo de despessoalização humana, quando nomes viram números tatuados no braço e as chicotadas não dóem tanto quanto o escárnio de quem as aplica.

    O tema do livro é fiel ao título – como a busca por sentido mantém a chama da vida acesa, mesmo diante de condições terríveis. Motivos variados encorajavam prisioneiros subnutridos a encarar as extremas dificuldades e comemorar cada dia sobrevivido: como formar uma família, ou encontrar a sua, separada pelos nazistas, ou escrever um livro, ou comer novamente o prato preferido cercado por amigos. A engrenagem seguia em movimento motivada pelo que se esperava do futuro. O porvir era o que separava os sobreviventes de quem se atirava às cercas eletrificadas para dar um basta ao sofrimento.

    O trecho que mais me impactou no livro foi a descrição dos desistentes. Quando o sentido deixava de fazer sentido, ou cessava de existir, era perceptível aos demais. O prisioneiro em questão não levantaria da cama – impossível movê-lo sob motivação ou ameaça -, então lá permanecia deitado, atônito, frequentemente sujo nas próprias necessidades, incólume ao que acontecia. Ainda deitado, acendia um cigarro, mercadoria valiosa no campo, que poderia ser trocada por comida. Nada mais importava. Segundo o Dr. Frankl, os desiludidos raramente sobreviviam por mais de 48 horas, já que cessara o motivo para permanecer na luta.

    Me senti profundamente tocado pelo relato dos desistentes, pois sinto que – guardadas as devidas proporções -, ele traduz bem os últimos dias da minha avó Malvina. A pessoa mais cosmopolita que eu conheci, capaz de conversar acerca de qualquer assunto, com qualquer pessoa. Vivaz, com senso de humor mordente, timing cômico impecável, rara inteligência. Ao final, completamente entregue, deprimida e desprovida de qualquer vontade. Não se importava mais com a higiene pessoal, passava os dias deitada e não se deleitava com qualquer atividade que não envolvesse comer ou dormir.

    Para a minha avó, em alguma parte da trajetória, o sentido se perdeu. Ela passou então a ser refém dentro do próprio corpo, enquanto aguardava o fim – só lhe faltou o cigarro.

    Eu e minha avó Malvina, antes da desistência.

    O livro do Dr. Frankl tem muitos outros momentos dignos de atenção, como a formação de “santos” e “porcos”, que no léxico do autor representam como a agrura extrema é capaz de escancarar o melhor e o pior das pessoas.

    A trajetória do próprio Viktor Frankl é interessantíssima, transferido múltiplas vezes, contando com a sorte em outras inúmeras ocasiões.

    A obra te deixa vidrado, engasgado, por vezes com lágrimas nos olhos. Pode necessitar de uma pequena pausa para respirar entre capítulos. Me ensinou um mundo em poucas páginas. O Dr. Frankl é um autor com o poder de entrar na sua mente e, no meu caso, cultivar um questionamento: teria sido eu um bom psicanalista?