Você já ouviu falar em Deja Vu?
O livro A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan, me proporcionou um acontecimento único até aqui na minha vida.
Foi um dos livros que eu adicionei à lista de leituras desejadas para o ano – e isso pode não soar muito relevante, mas as publicações que adentraram esse hall foram devidamente pesquisadas a respeito. Leram-se sinopses e mais sinopses. Não sou o tipo de pessoa que adiciona um livro à estante sem nenhuma informação a respeito dele.
Tá, e por que essa informação é importante? Imagino que você esteja se perguntando…
Porque apesar de atravessar essa minuciosa triagem, ainda na metade do primeiro capítulo, A Visita Cruel do Tempo, começou a transmitir uma angústia que eu não conseguia explicar bem. Era familiar demais, quase como se eu já tivesse passado por aquilo antes. Um deja vu literário. Eu precisei de mais um capítulo para que a ficha caísse por completo:
Caramba, eu já li esse livro antes. Mas eu não me lembro.
Mesmo depois da pesquisa e das sinopses, eu não percebi. Seria uma leitura repetida. E quando dei por mim, a angústia crescia a cada página que eu virava. Eu conheço essas pessoas, apesar de não conhecê-las mais. E a memória não se restaurava, ou seja, eu tinha certeza absoluta que já havia passado por aquela história antes, mas não tinha ideia de qual seria o desfecho.
Devo confessar que isso impactou na minha boa vontade com o livro. Afinal, uma obra que eu não recordo de ler, nem mesmo sou capaz de lembrar do título na capa, invariavelmente só pode ter me proporcionado uma experiência apagável, indiferente, sem marcas.
E sabe de uma coisa? Que bom que eu continuei lendo. Porque foi uma lição de humildade.
Jennifer Egan vai e volta na cronologia dos personagens durante a obra, mas foi o capítulo 10 que me pegou de jeito. Até o décimo capítulo, sinto que imperava meu desprazer em reler algo varrido para as gavetas mais escusas da minha mente. Mas no capítulo 10, meus amigos. Ah, no capítulo 10…
Foi como se eu estivesse lendo pela primeira vez – não o livro, mas na vida. Porque uma coisa é avançar linhas em uma página, outra é sentir profundamente a dor de alguém. E eu senti a dor de Rob no décimo capítulo. O único que conta a história dele. E eu entendi Rob. E eu empatizei com Rob, apesar de não compartilhar dos mesmos problemas que ele.
Sabe, Rob me mostrou que mesmo um livro já lido, mesmo um esquecido, pode proporcionar algo belo.
Se o título é A Visita Cruel do Tempo, não há como não traçar um paralelo com ideais heraclitianos de homens e rios que nunca são os mesmos. Dez anos depois, um Daniel diferente pegou um livro que já lera, mas a experiência transformou o livro em algo novo.
Pelo menos do décimo capítulo em diante.
É difícil para mim atribuir uma nota justa ao livro. Ele mexeu com meus sentimentos positivamente e negativamente. Mas se você quiser uma visão menos enviesada que a minha, talvez você deva considerar a dos jurados do Prêmio Pullitzer – que premiaram a obra em 2011.
É sobre rock’n’roll, sobre definhar enquanto humanos, mas também sobre redenções. Talvez principalmente sobre redenções. Porque um momento da nossa existência não nos define, tampouco escolhas erradas, ou a profissão que escolhemos, os parceiros com quem vivemos, nada disso. O tempo é cruel e ele é o que nos transforma: e só pára quando o último ponteiro passa da meia-noite.
Nota 4/5, mas leve com uma pitada de sal.














