Category: Brasileiro

  • Descultizando a Norma

    Descultizando a Norma

    Eu devia ter uns 19 anos, mais ou menos.

    Estava no meu primeiro estágio em uma redação de jornal – por sinal, a única vez que vivi esse jornalismo raíz de pauta, com hora pra fechar a edição e aquela adrenalina toda que só quem viveu conhece.

    Jornal popular, esportivo, com apelo às massas.

    Minha carinha saía assim no jornal àquela época. Faz tempo, viu?

    Começou um papo sobre gente que escrevia bem, que lá pelas tantas descambou para posts no Facebook. Algum colega disse que leu uma postagem repleta de erros de português.

    “Mas o texto era bom?” – eu perguntei.

    “Acabei de dizer que estava cheio de erros de português” – o interlocutor respondeu, meio sem paciência, como se apontasse uma obviedade.

    “Essa parte eu entendi, mas não acho que isso define a boa comunicação. Tem gente que não conseguiu estudar, mas que é capaz de se fazer entender”.

    A editora, minha chefe na ocasião, ouviu a conversa e resolveu se intrometer.

    “Se alguém publica algo repleto de erros, eu tenho preconceito e nem leio”.

    Grande parte das pessoas à minha volta concordaram. Eu, um mísero e sobrecarregado estagiário, me calei.

    Àquela época, ainda estavam frescas em minha memória as aulas de Teoria da Comunicação que tive na faculdade. Hoje já faz um tempinho, mas posso tentar explicar para vocês de uma maneira simplificada.

    No processo da comunicação humana, nós temos:

    1) O Transmissor – alguém que quer passar uma mensagem. No caso, a pessoa que escreveu o post repleto de erros de português.

    2) Ele se comunica com o Receptor, o destinatário (nesse contexto, a pessoa que leu o post).

    3) A mensagem é a informação que é transmitida, certo? Ela é enviada por meio de um código – nesse exemplo, o código escolhido para o post no Facebook foi a língua portuguesa escrita, mas poderiam ter sido gestos, braile, código morse, outro idioma, etc.

    Resumindo:

    Transmissor -> Mensagem codificada -> Receptor

    E quando a Comunicação funciona?

    Explicando mal e porcamente: quando o Receptor é capaz de entender e contextualizar a mensagem do Transmissor.

    Se eu falo algo em inglês e você não entende inglês, não há comunicação efetiva.

    Se eu falo português e você também, mas você é incapaz de absorver o contexto, não há comunicação efetiva. Por exemplo, nas minhas aulas de química inorgânica na escola, a professora falava português, mas para mim parecia grego.

    Beleza, mas por que eu dei essa volta toda? É uma pergunta honesta, mas você vai entender meu raciocínio agora.

    Leia essa frase aqui, por favor:

    “Oji eu cordei cuma sodade danada da muié, cadiquê eu amo ela muito”

    Você foi capaz de entender o que está escrito? Eu posso apostar que sim.

    Mesmo que oji se escreva hoje; que a contração “cuma” não exista na gramática; que ‘cordei’, ‘sodade’ e ‘muié’ sejam abreviações com “erros” ortográficos; que a palavra cadiquê seja substituída com “por causa de que” – que mesmo assim não está correto gramaticalmente.

    Por sinal, até o “eu amo ela” está ‘errado’. O correto seria “eu a amo”.

    Acho que você já entendeu o intuito desse teste. Eu queria demonstrar que a comunicação pode ser efetiva, mesmo que os famigerados “erros de português” estejam presentes.

    Agora me acompanha nesse salto de pensamento:

    Dizemos que alguém escreve certo quando respeita as normas gramaticais, também conhecida por norma culta.

    Epa, pera lá… norma CULTA?

    Você já parou pra refletir no significado desse adjetivo? Uma pessoa culta é alguém com estudo e instrução, certo?

    Mas pode significar mais que isso na verdade. Uma pessoa culta, de acordo com o dicionário, se traduz por alguém que alcançou um estágio superior de civilidade. Alguém que tem mais polimento, erudição, formalidade.

    O que se espera de uma pessoa culta, seguindo essa definição? Que ela prefira escutar Mozart ou Racionais? Vai assistir Ópera de Verdi ou a novela das oito?

    A norma culta não passa de uma elitização.

    Ela quer mesmo é excluir pessoas que não tiveram acesso à informação e instrução da conversa. Pior que isso, na verdade. Ela afirma que apenas pessoas ‘civilizadas’ podem sentar à mesa para debater, mas podem perceber que a ‘civilidade’ deriva de símbolos definidos por essa elite como superiores. Música clássica é ‘superior’ ao rap porque uma certa elite branca europeia disse assim. Para enaltecer o que era praticado por lá e rejeitar o que vem de “civilizações menores”.

    No caso do Brasil, Portugal virou e disse: esse aqui é o jeito correto de ser e se comportar – até de escrever e falar! E até hoje a gente reproduz um pensamento colonialista quando diminui alguém por não escrever ‘do jeito certo’.

    E eu não acho isso democrático.

    Semana passada eu terminei de ler “Latim em Pó”, livro do professor e linguista Caetano Galindo, que dá aulas na Universidade do Paraná e também é tradutor – ele traduziu uma versão de Ulysses de James Joyce (talvez o livro mais complexo da história) para o português e recebeu até prêmio por isso.

    Em “Latim em Pó”, o professor Galindo passeia pela formação e nuances da língua portuguesa e de outras derivadas do Latim, desafia a norma culta e assegura que a linguagem é um organismo vivo em constante transformação.

    A gente não escreve mais “vossa mercê”, “vosmecê”, porque esse pronome de tratamento evoluiu até chegarmos em “você”. A língua só existe e opera enquanto há pessoas para utilizá-la, e a utilização prevê mudanças, contrações, gírias.

    Se não fosse um organismo vivo, o Dicionário Oxford não elegeria uma nova palavra anualmente como a “Palavra do Ano”.

    Ah, e linguagem também é um conglomerado de palavras que importamos de outros lugares. Então antes de pensar em português correto, lembre-se dos seguintes vocábulos:

    Pipoca? Tupi.
    Carro? Celta.
    Azul? Persa.
    Guerras? Alemão.
    Cafuné? Quimbundo.
    Azar? Árabe.
    Cochilo? Banto.

    Leiam o livro de Caetano Galindo porque ele explica isso e muito mais melhor do que eu jamais serei capaz de fazer.

    Eu só quero passar a ideia de que norma culta é careta, elitista e que a comunicação efetiva é independente dela. O valor da mensagem não se perde enquanto você puder interpretar o contexto.

    E neologismo/regionalismo não serve só pra enaltecer a obra de Guimarães Rosa.


  • Pequena coreografia do Adeus, de Aline Bei

    Pequena coreografia do Adeus, de Aline Bei

    Há livros tristes, livros sobre abandono, livros que te fazem chorar, e que mostram a complexidade do ser humano – e de tudo que se convém chamar de relacionamento. Pequena coreografia do Adeus, de Aline Bei, engloba todas essas características.

    Júlia teve uma infância conturbada. Mãe violenta, pai omisso. Cresceu em um ambiente inseguro, carente de afeto e cumplicidade. Autoestima no chão, raiva que a faz explodir em certos momentos, uma batalha constante contra o abismo da solidão – que parece um bom lugar, quando comparado ao lugar comum dos abusos físicos e psicológicos.

    É um livro que escancara: há pessoas que simplesmente não nasceram para procriar, que se enxergam incapazes de amar a prole, e se colocam em constante competição com os rebentos.

    Ficamos assim com uma genitora narcisista a desenvolver traços psicóticos, e um pai que procura em outros muitos braços seus abraços, que pouco significam. Na orelha do livro pode se ler: “a mãe não suporta a ideia de ter sido abandonada pelo marido, enquanto o pai não suporta a ideia de ter sido casado”. Eu não poderia definir melhor.

    E no meio de um injusto turbilhão de sentimentos está a pequena Júlia, que apesar dos pesares, cresce para tornar-se uma adulta funcional e sonhadora. Infelizmente, o suporte nunca vem de casa, e ela precisa buscar fora do seio familiar personagens que a ajudam a se guiar por este mundo de mágoas.

    Aline Bei é autora de mão cheia. Capaz de traduzir dor e sofrimento, sem perder a leveza de suas linhas. No entanto, sinto que existe uma predisposição gigantesca a tudo poetizar, contudo, nem tudo é poético. Isso se reflete no texto.

    Porque você
    que ainda não leu
    Pequena Coreografia
    do ADEUS, não sabe.
    Mas o texto é todo disposto assim, em versos sem métrica.
    Para enfatizar
    a poesia disforme da história toda.
    E eu entendo. Juro.
    É o estilo da autora. A forma de
    colocar
    a dor no papel.
    Mas
    Em um ou outro momento
    Me tirou
    A paciência.

    Mesmo com a superpoetização, não se engane. É um livro que vale a pena ser lido. Mas vá preparado. É triste do início ao fim.

    Nota 4,5/5.

  • O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório

    O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório

    O que é racismo?

    Quando imaginamos um racista, pintamos na cabeça um quadro de algém da alt-right, de características arianas, caricato, vilanesco e muito distante do que acreditamos constituir um ser humano decente.

    Só que essa é a ponta do iceberg. O racismo, principalmente o que está tão entranhado à construção social brasileira, vai muito além de débeis fascistóides e gestos explícitos, como uma banana atirada a um jogador negro em estádios de futebol, ou um desafeto chamado de macaco.

    O carioca Jeferson Tenório prova repetidamente, durante o livro O Avesso da Pele, que o racismo se esconde sob camadas muito mais sutis, que se mascaram em atitudes cotidianas, no vocabulário, e em gestos que parecem inocentes à primeira vista, mas que carregam uma história de opressão por trás.

    Com personagens que transbordam frustração, raiva, impotência e dor, Tenório ilustra as variadas formas de racismo – desde a escancarada violência policial, até a mais velada das camadas -, enquanto conta uma história envolvente de tragédias familiares: assim mesmo, no plural.

    Uma narrativa em segunda pessoa, travestida de primeira pessoa. Ao avesso, como o título do livro. Uma memória, um diário, talvez uma carta de um menino endereçada aos pais. Tem sutileza mesmo nos momentos duros, que não são raros ao longo da leitura.

    O Avesso da Pele é simples e direto. Na melhor definição possível que você possa encontrar no dicionário. Os personagens criados são tão reais que você pode esbarrar com eles na esquina de casa. É fácil de gostar deles e mais fácil ainda entender e perdoar os defeitos que apresentam.

    Um livro que é político sem ser panfletário, sem utilizar de atalhos, sem repetir discursos. É a melhor leitura que tive em 2025 até o momento.

    Nota 5/5. Venda todas as suas coisas para comprar um exemplar, se preciso.

  • O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk

    O som do rugido da onça, de Micheliny Verunschk

    Eu adorei o conceito d’O Som do Rugido da Onça, de Micheliny Verunschk. A autora pernambucana conta uma história real sobre o colonialismo e os efeitos devastadores dele para os povos originários, sob um prisma de fantasia que me interessou bastante.

    Em uma obra repleta de lirismos e neologismos, Verunschk conta a epopéia de Iñe-e, menina da tribo Miranha, que ao lado de um rapaz da tribo rival Juri é traficada para a Alemanha, como “fruto” da expedição encabeçada pelos cientistas Carl Friedrich Martius e Johann Baptist von Sphinx.

    Iñe-e, rebatizada Isabella Miranha na Alemanha, a protagonista da obra


    A expedição existiu no mundo real, e após serem levados à Munique como presentes à Coroa, as crianças foram rebatizadas como Isabella e Johann e padeceram pouco depois, em decorrência do rigoroso inverno europeu – isso tudo está documentado.

    À autora, cabe ficcionalizar as “entrelinhas” da História.

    A personagem principal da trama, Iñe-e, é menina-onça, reconhecida pelo espírito de Tipai-uu, grande predadora divina das matas tupiniquins, que habita o folclore do povo Miranha. Meio felino, meio menina, a jovem tem dentro de si o furor da caçada e um rugido digno do topo da cadeia alimentar.

    A rainha das nossas matas, de quem Iñe-e herdou o sangue

    Por conta dessa coligação com o espírito, Iñe-e é temida pelo próprio pai, o líder da tribo, que para livrar-se da menina, a oferece como presente aos expedicionários.

    O livro ressalta a dor das crianças raptadas, em terrível viagem de barco de volta ao Velho Mundo. Separo aqui uma passagem:

    “A intenção era que a Europa pudesse admirar aquele deslumbre de vida que há muito perdera. A Europa era velha, muito velha, reumática, quiçá sofrendo alguma moléstia cancerosa. E aquilo que os cientistas traziam consigo era uma promessa, uma fonte de juventude, novíssima pedra filosofal”.

    Micheliny Verunsk trata também do desprezo dos colonizadores e da crueldade de Martius, recortado como o principal vilão da trama.

    Sphinx e Martius, os expedicionários colonizadores, que passaram pelo Brasil no séc XIX.


    Agora vamos aos pontos negativos – na minha opinião, claro.

    A narrativa principal se reveza com um conto contemporâneo, a respeito da jovem Josefa, que ao meu entender, tem como intenção criar um laço com Iñe-e e como sofremos até hoje consequências negativas herdadas do Brasil-Colônia. Mas senti uma desconexão entre as narrativas, sem que Josefa e a linha do tempo em que se introduz fossem plenamente desenvolvidas.

    Como escrito no segundo parágrafo, o texto faz uso de lirismos, neologismos e também de palavras pertencentes ao vocabulário Miranha. Não me agrada a posição de jurado de estilo, mas ao meu parecer, a extrapolação dos termos torna o livro levemente parnasiano em determinados momentos. É uma leitura que exige do leitor – não que isso seja ruim, mas senti certo exagero.

    O início da obra é super dinâmico e as páginas voam. O último terço, no entanto, é um tanto arrastado: tive a impressão que poderia ser mais curto. Não é um bom sinal para um livro com menos de 180 páginas.

    (Você está entrando na área de Spoiler!!!)

    O Som do Rugido da Onça se divide em três partes. O primeiro ato contextualiza as personagens e documenta o rapto das crianças. O segundo, traz mais detalhes sobre Josefa e a morte das crianças na Bavária.

    E o terceiro? Justamente sobre ele que eu gostaria de discutir.

    Na terça parte, Iñe-e morta enquanto criança, é reencarnada como onça, resgatada pela protetora Tipai-uu e rebatizada: Uaara-Iñe-e.

    E como “justiça de onça é no dente”, as jaguaras partem em redenção sangrenta, empilhando vítimas nas florestas brasileiras, antes de um passeio astral até a Alemanha, onde dão cabo também da vida do expedicionário Martius.

    É o momento mais etéreo da trama, acompanhado pela parte mais lírica do texto. Apesar de eu entender – e inclusive aprovar – a intenção da autora de criar um arco de vingança para a personagem, não fui envolto na narrativa tanto quanto gostaria.

    Agradeci quando a trajetória de Uaara-Iñe-e terminou, com um merecido descanso na maloca das onças.

    (Fim da área de Spoiler)

    Deixei para dizer isso no final para que não influenciasse opiniões, mas devo contá-los que o livro foi o grande vencedor do Prêmio Jabuti em 2022.

    Vale a leitura?

    Acho que sim, e consigo enxergar O Som do Rugido da Onça como currículo nas escolas.

    Confesso, no entanto, que as garras da felina não me envolveram por completo. 3.5 de 5.

  • A Pediatra, de Andrea Del Fuego

    A Pediatra, de Andrea Del Fuego


    Cecília é uma pediatra que odeia crianças

    O livro A Pediatra, de Andrea del Fuego me foi dicotômico.

    Por um lado, o estilo narrativo da autora, verborrágico, sem pausas ou respiros, me agradou profundamente. Quando dei por mim, estava a dançar com as palavras agitadamente, nada parecido com a sutileza de uma valsa – mais para aquele forró suado, com testas pingando, corpos encharcados, e sandálias arrastadas que levantam poeira vermelha. Dois seres melados e grudados, com os pés mutuamente pisados – eu e as palavras de del Fuego.

    Posta de lado toda a paixão fogosa do léxico, a história em si não me comoveu. Assim como a personagem principal. Não mesmo. Se a narrativa é forró improvisado, o enredo é um bolero chato e previsível.

    A protagonista é Cecília, uma pediatra que odeia crianças, ou seres humanos em geral, à exceção do pai (alô, Freud!). Foi difícil para mim estabelecer qualquer tipo de vínculo com a doutora, pois a amargura dela me soava apenas desinteressante. Ela tem vocação para sociopata e flerta com ser vilã, ou anti-heroína, mas lhe falta o carisma necessário para ocupar tais posições.

    Cecília acaba de atravessar um divórcio e vive um caso com o executivo Celso, outro água de salsicha, casado. A pediatra participa da equipe médica que traz ao mundo o primeiro filho de Celso, Bruninho. Posteriormente, o “romance” entre eles avança até que o primogênito é utilizado como bode expiatório para os encontros do casal.

    A pediatra desenvolve uma obsessão doentia, uma psicose envolvendo Bruninho, e passa a tratar o filho do “namorado” como se fosse seu. Já voltamos a isso.

    Pois vamos pausar um momento para falar sobre a trama secundária do livro, que ao meu ver é muito mais interessante do que a história principal. Ela envolve a empregada de Cecília, Deise, e o romance proibido com Robson – não entro em mais detalhes para evitar spoilers, mas o que posso dizer é que é uma narrativa muito mais envolvente e sedutiva do que a de Cecília. Infelizmente, a autora parece perder a vontade de contar o desfecho do caso e deixa o plot completamente em aberto. Uma pena.

    Sobre o final do livro, se você não quiser spoilers, pule as próximas linhas…

    (Começo do Spoiler)

    Conforme a história Cecília x Celso x Bruninho avança, ainda na metade do livro, eu só conseguia enxergar dois finais possíveis para consagrar a tragédia que se desenha:

    a) Bruninho morre;
    b) Cecília rapta Bruninho.

    Batata.

    Del Fuego quase mata a criança em um surto de cetoacidose diabética, para impotência de Cecília. No entanto, Bruninho sobrevive, para ser raptado pela pediatra no fim do livro.

    (Fim do Spoiler)

    Em resumo: a estética de Del Fuego me agradou e ficaria feliz em ler outros títulos da autora. Só não precisa convidar a pediatra Cecília…

    2.5 de 5.