Qual é o limite ético da Inteligência Artificial? Tem um monte de gente bem mais inteligente do que eu, cujo trabalho é pensar nisso diariamente. No entanto, tenho uma pequena contribuição a fazer para essa discussão: eu acho que, com a memória de quem se foi, não se brinca.
A empresa 2wai, idealizada pelo ator canadense Calum Worthy, oferece um serviço bem peculiar. Eles criam avatares de Inteligência Artificial baseados em seres humanos reais para dialogar com gente de carne e osso. A ideia de produzir avatares artificiais não é exclusividade da 2wai, outras empresas no mercado oferecem serviços parecidos: destaco as plataformas HeyGen e Synthesia.
A novidade da 2wai está no tipo de avatares e no nicho de mercado no qual eles estão pensando em se concentrar. Na semana passada, Worthy publicou em sua conta do Twitter/X uma propaganda a respeito do serviço (que você pode assistir no vídeo abaixo). Durante a peça publicitária, uma mulher gera uma versão digital da sua mãe para uso post mortem.
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Ou seja, ela criou um avatar da senhora para poder continuar a conversar e construir um relacionamento com a mãe após o óbito. Parece estranho? Calma que piora. A moça que criou o avatar da mãe tem um filho, a quem ela traz para construir uma relação de afeto e intimidade com a versão digital da avó falecida – que ele sequer chegou a conhecer.
Vale ressaltar que o avatar, apesar de recriar a imagem, o tom de voz e os trejeitos físicos da pessoa em que se baseia, não importa da mesma a memória, as lembranças, a intimidade. É uma representação virtual, que apesar de fidedigna em aparência, é incapaz de transmitir os mesmos ideais e sabedoria existentes, e filtra todos os elementos da conversa a partir de uma base de dados pertencente à empresa.
Resumindo: pode acontecer de a versão digital da avó que faleceu reproduzir discursos que jamais seriam proferidos em vida, rivalizar com as crenças e com as ideias da pessoa em que se baseia.
Como dito no vídeo, eu abriria mão de muita coisa para ter mais uma conversa com a minha avó Malvina, que nos deixou há alguns anos. No entanto, apesar de não ser uma pessoa religiosa, eu entendo que há algo sagrado a respeito da memória que nós não deveríamos, enquanto sociedade, profanar.
Se existe um limite moral e ético, isso está em discussão, as linhas são tênues e absolutamente subjetivas, mas o propósito desse aplicativo é onde eu traço a minha linha.
Eu pedi minha mulher em casamento. Tem vídeo aqui, caso você queira ver.
Precisamente na data do nosso terceiro aniversário de namoro.
Depois de quase três anos morando juntos (o que para mim já significa estar casado, por sinal).
Foi simples. Não teve pompa, champagne estourado, viagem pra ilha paradisíaca, ou jantar em restaurante com estrela Michelin. Nada disso.
O casal de noivos
Foi na sala de casa. Depois de um jantar que eu mesmo cozinhei. Na nossa intimidade, dentro da nossa rotina, em um espaço seguro.
Sem serviço de garçom volante, sem ninguém ao redor, sem salva de palmas e olhares de transeuntes.
Foi nosso. Só nosso. Único, lindo, do nosso jeito.
E agora, depois de feito o pedido, é fácil falar assim. Não existe profissão mais tranquila do que engenheiro de obra pronta.
Eu já estava pensando em como faria esse pedido há algum tempo. Amo tanto alguém que quero envolver até o Estado nessa relação, e agora? Como dizer isso de uma maneira memorável?
Todas as ideias que eu tinha eram descartadas.
Justamente porque não eram tão pomposas, tão maquiadas e instagramáveis.
Eu tive que lutar contra esse pensamento social – emburrecedor, por sinal – de que um pedido de casamento em Mykonos agrega mais valor do que um feito dentro do lar. Um conflito interno real, que resistia.
Eu não quero pagar de moralista, ou diminuir quem se ajoelha frente à parceira nas Bahamas. Não é essa a ideia.
Eu acho que é super legal, por sinal.
Eu só tive mesmo que lutar contra a ideia de que isso representaria um pedido de casamento perfeito para nós dois.
Só porque a sociedade imprime que quanto mais dinheiro investido, maior a importância do pedido.
E aí eu entendi que eu já estava preparado para assumir a responsabilidade de um matrimônio, de constituir uma família com alguém, e que perfeito mesmo é que o pedido seja feito, independente de quantos likes ele vai te gerar na rede social.
Mas foi uma construção, ou melhor, uma reconstrução de pensamento que me levou a isso. Porque eu tenho essa mania de idealizar cenários a ponto de torná-los inalcançáveis. Inatingíveis. Sempre aumentando um ponto ao conto. Não basta ser em Bora Bora. Tem que ser lá, com show particular do Caetano Veloso, chegada de barco guiada por golfinhos e aliança entregue por um par de unicórnios albinos gêmeos.
O irrealizável se transforma em procrastinação e ansiedade. É um modus operandi familiar e adoecido.
E burro, gente. Burro mesmo.
E esse é o tipo de coisa que a gente só percebe depois. Quando se decide entregar o perfeito possível, que na verdade não era perfeito, até se tornar.
Porque eu tenho certeza que meu pedido de casamento foi único, emocionante, memorável e que vai acompanhar as nossas lembranças para sempre. Vamos contar para filhos e netos, daquela vez que mamãe sentou na rede e papai mostrou um vídeo com uma serenata mal cantada – e vamos rir, nos emocionar.
Porque o mais importante ali era o amor. É o amor. Que, diga-se, muitas vezes não está presente em pedidos transatlânticos, com tapetes vermelhos e um orçamento hollywoodiano.
Não há nada mais extraordinário do que um homem comum construindo uma família comum.
Estava no meu primeiro estágio em uma redação de jornal – por sinal, a única vez que vivi esse jornalismo raíz de pauta, com hora pra fechar a edição e aquela adrenalina toda que só quem viveu conhece.
Jornal popular, esportivo, com apelo às massas.
Minha carinha saía assim no jornal àquela época. Faz tempo, viu?
Começou um papo sobre gente que escrevia bem, que lá pelas tantas descambou para posts no Facebook. Algum colega disse que leu uma postagem repleta de erros de português.
“Mas o texto era bom?” – eu perguntei.
“Acabei de dizer que estava cheio de erros de português” – o interlocutor respondeu, meio sem paciência, como se apontasse uma obviedade.
“Essa parte eu entendi, mas não acho que isso define a boa comunicação. Tem gente que não conseguiu estudar, mas que é capaz de se fazer entender”.
A editora, minha chefe na ocasião, ouviu a conversa e resolveu se intrometer.
“Se alguém publica algo repleto de erros, eu tenho preconceito e nem leio”.
Grande parte das pessoas à minha volta concordaram. Eu, um mísero e sobrecarregado estagiário, me calei.
Àquela época, ainda estavam frescas em minha memória as aulas de Teoria da Comunicação que tive na faculdade. Hoje já faz um tempinho, mas posso tentar explicar para vocês de uma maneira simplificada.
No processo da comunicação humana, nós temos:
1) O Transmissor – alguém que quer passar uma mensagem. No caso, a pessoa que escreveu o post repleto de erros de português.
2) Ele se comunica com o Receptor, o destinatário (nesse contexto, a pessoa que leu o post).
3) A mensagem é a informação que é transmitida, certo? Ela é enviada por meio de um código – nesse exemplo, o código escolhido para o post no Facebook foi a língua portuguesa escrita, mas poderiam ter sido gestos, braile, código morse, outro idioma, etc.
Resumindo:
Transmissor -> Mensagem codificada -> Receptor
E quando a Comunicação funciona?
Explicando mal e porcamente: quando o Receptor é capaz de entender e contextualizar a mensagem do Transmissor.
Se eu falo algo em inglês e você não entende inglês, não há comunicação efetiva.
Se eu falo português e você também, mas você é incapaz de absorver o contexto, não há comunicação efetiva. Por exemplo, nas minhas aulas de química inorgânica na escola, a professora falava português, mas para mim parecia grego.
Beleza, mas por que eu dei essa volta toda? É uma pergunta honesta, mas você vai entender meu raciocínio agora.
Leia essa frase aqui, por favor:
“Oji eu cordei cuma sodade danada da muié, cadiquê eu amo ela muito”
Você foi capaz de entender o que está escrito? Eu posso apostar que sim.
Mesmo que oji se escreva hoje; que a contração “cuma” não exista na gramática; que ‘cordei’, ‘sodade’ e ‘muié’ sejam abreviações com “erros” ortográficos; que a palavra cadiquê seja substituída com “por causa de que” – que mesmo assim não está correto gramaticalmente.
Por sinal, até o “eu amo ela” está ‘errado’. O correto seria “eu a amo”.
Acho que você já entendeu o intuito desse teste. Eu queria demonstrar que a comunicação pode ser efetiva, mesmo que os famigerados “erros de português” estejam presentes.
Agora me acompanha nesse salto de pensamento:
Dizemos que alguém escreve certo quando respeita as normas gramaticais, também conhecida por norma culta.
Epa, pera lá… norma CULTA?
Você já parou pra refletir no significado desse adjetivo? Uma pessoa culta é alguém com estudo e instrução, certo?
Mas pode significar mais que isso na verdade. Uma pessoa culta, de acordo com o dicionário, se traduz por alguém que alcançou um estágio superior de civilidade. Alguém que tem mais polimento, erudição, formalidade.
O que se espera de uma pessoa culta, seguindo essa definição? Que ela prefira escutar Mozart ou Racionais? Vai assistir Ópera de Verdi ou a novela das oito?
A norma culta não passa de uma elitização.
Ela quer mesmo é excluir pessoas que não tiveram acesso à informação e instrução da conversa. Pior que isso, na verdade. Ela afirma que apenas pessoas ‘civilizadas’ podem sentar à mesa para debater, mas podem perceber que a ‘civilidade’ deriva de símbolos definidos por essa elite como superiores. Música clássica é ‘superior’ ao rap porque uma certa elite branca europeia disse assim. Para enaltecer o que era praticado por lá e rejeitar o que vem de “civilizações menores”.
No caso do Brasil, Portugal virou e disse: esse aqui é o jeito correto de ser e se comportar – até de escrever e falar! E até hoje a gente reproduz um pensamento colonialista quando diminui alguém por não escrever ‘do jeito certo’.
E eu não acho isso democrático.
Semana passada eu terminei de ler “Latim em Pó”, livro do professor e linguista Caetano Galindo, que dá aulas na Universidade do Paraná e também é tradutor – ele traduziu uma versão de Ulysses de James Joyce (talvez o livro mais complexo da história) para o português e recebeu até prêmio por isso.
Em “Latim em Pó”, o professor Galindo passeia pela formação e nuances da língua portuguesa e de outras derivadas do Latim, desafia a norma culta e assegura que a linguagem é um organismo vivo em constante transformação.
A gente não escreve mais “vossa mercê”, “vosmecê”, porque esse pronome de tratamento evoluiu até chegarmos em “você”. A língua só existe e opera enquanto há pessoas para utilizá-la, e a utilização prevê mudanças, contrações, gírias.
Se não fosse um organismo vivo, o Dicionário Oxford não elegeria uma nova palavra anualmente como a “Palavra do Ano”.
Ah, e linguagem também é um conglomerado de palavras que importamos de outros lugares. Então antes de pensar em português correto, lembre-se dos seguintes vocábulos:
Leiam o livro de Caetano Galindo porque ele explica isso e muito mais melhor do que eu jamais serei capaz de fazer.
Eu só quero passar a ideia de que norma culta é careta, elitista e que a comunicação efetiva é independente dela. O valor da mensagem não se perde enquanto você puder interpretar o contexto.
E neologismo/regionalismo não serve só pra enaltecer a obra de Guimarães Rosa.
Como um bom millenial que se preze, só sou capaz de concluir tarefas domésticas quando acompanhado de um podcast. O escolhido para lavar a louça hoje foi Avestruz Master, da Rádio Novelo. Por sinal, recomendadíssimo, ainda que eu tenha escutado apenas o primeiro dos quatro episódios já publicados.
O assunto é o surto das fazendas de avestruz no Brasil no fim do século XX. Para quem não sabe – incluindo eu duas horas atrás -, houve no Brasil um boom de investimento na maior ave do mundo, que provou-se uma gigantesca bolha econômica. Teve gente que viu milhões irem por água abaixo e outros que perderam o pouco que tinham ao arriscarem no animal, que por sinal, é o primeiro selecionável no Jogo do Bicho.
Mas o texto não é sobre essa história, afinal, tenho certeza que a Rádio Novelo é capaz de contá-la muito melhor do que eu.
É sobre uma frase específica que eu ouvi durante o podcast. Uma aspa creditada à Manuel Piveta Assunção que, atualmente, é o maior estrutiocultor do país – por sinal, estrutiocultor quer dizer criador de avestruz. Eu também aprendi isso hoje.
Ele disse:
“Eu sempre ouvi que empreendedorismo se mede pelo tamanho da irresponsabilidade”.
Disse o cara que mexeu com uma imensidão de produtos dentro do mercado do agronegócio, foi pioneiro em plantar soja no Sul do país, e tem a maior criação de um bicho que faliu milhares de pessoas no país, mas que lhe rende gordas cifras.
Por sinal, antes que você fique chocado, eu não sou um conhecedor da vida e obra de Manuel Piveta Assunção, também só fui ouvir falar dele pela primeira vez umas duas horas atrás.
Mas mexeu comigo essa afirmação.
Justamente porque ultimamente intensifiquei minha atuação empreendedora na área de produção de conteúdo – o que, à letra fria da lei da vida, me parece uma retumbante irresponsabilidade.
É um alento perceber que alguém com tino para negócios compartilha da mesma visão de mundo que eu. Paixões também são irresponsáveis, não?
Aliás, posso dizer que as melhores decisões que tomei nesses 33 anos até aqui foram aquelas que todos disseram: “Nossa, mas você é corajoso”, quando na verdade queriam dizer “Que burrice”.
Quando mudei de cidade pela primeira vez foi assim. Quando mais tarde mudei de país foi assim. Quando retornei ao Brasil em definitivo porque encontrei o amor… adivinhem? Foi assim.
E essa é a definição de empreender na minha visão. Arriscar por algo que vale a pena. A vida é curta demais para excesso de responsabilidade. Mesmo que ao final do dia eu não possa esconder minha cabeça debaixo da terra, como um avestruz faria.
A série Adolescência, da Netflix, está no topo das paradas. É atualmente a produção mais vista na gigante do streaming no Brasil. Eu não sabia nada a respeito dela, até assistir a uma reportagem do Pedro Dória e da Cora Rónai, do Canal Meio, a respeito do tema. Na verdade, não vi o vídeo, apenas a chamada e me interessei.
No mesmo dia, liguei a tv e fui direto ao título. São apenas 4 episódios, então decidi por terminar tudo em apenas uma sentada. Foi duro. É sobre um adolescente de 13 anos, suspeito de matar uma menina com quem estudava na escola, e as consequências geradas para ele, os amigos e a família.
Jamie, personagem principal e suspeito de assassinato, com o pai na delegacia
Todos os quatro episódios são gravados em plano-sequência – para quem não conhece o termo, plano-sequência é quando não há corte de edição. A câmera segue as personagens continuamente, sem que a cena se altere. É algo muito difícil de se alcançar tecnicamente. Em 4 episódios de 1 hora cada, então, é de uma minúcia impressionante.
Mas sim, sobre a série… Ela te deixa engasgado com alguns temas: bullying, segurança digital, alienação parental e a simples e inquestionável maldade humana – que por incrível que pareça, consegue ser mais forte entre crianças e adolescentes do que entre adultos.
Entre os 4 episódios, o terceiro para mim é o melhor de todos. Nele, uma jovem psicóloga tem uma sessão com o menino, suspeito de assassinato. Não vou revelar o conteúdo das conversas, mas é impressionante o quão fundo consegue-se ir dentro das fraquezas e inseguranças da criança, a ponto de se extrair todo o contexto e deixar a trama cristalina nas motivações. É cru. É tão humano, mas paradoxalmente, tão animalesco.
O terceiro episódio vale por todos os outros. É fantástico.
Eu gostei da série em geral, mas esse episódio vale mais do que todos os outros.
Agora, o que mais me espanta, enquanto enxergo em retrospecto, é que poderia ter sido eu.
Há duas décadas, com os mesmos 13 anos do protagonista, eu vivi a pior fase da minha vida. Nenhum desafio da vida adulta me proporcionou uma angústia tão recorrente e profunda quanto a rotina na sétima série do colégio.
Eu não tinha muitos amigos na escola e calhou que a turminha com quem eu andava debandou para outras instituições de ensino. O bullying já existia, mas havia uma rede de apoio, na qual existia suporte e motivação, gente com quem andar no recreio e, portanto, conseguíamos construir uma redoma ao nosso redor, contra os valentões. Um grupo de desajustados lutando contra o sistema.
Como eu disse, a rede de apoio se desfez. E, de repente, eu me encontrei sozinho para lidar com o problema.
Vale ressaltar que à época eu estava visivelmente acima do peso e, provavelmente, fui o último de toda a série a atravessar a puberdade. Ou seja, com 13 anos eram todos uns semi-adultos intimidadores, enquanto eu era um gordinho com cara de criança, menor, mais fraco e com vozinha fina de taquara rachada.
Para coroar, também usava aparelho fixo nos dentes, visto que minha arcada dentária, além de torta, contava também com protuberantes dentes incisivos, que me impediam de fechar os lábios por completo.
Começaram por me chamar de Coelho, depois de Cenoura – por último, Noura. Um apelido nada carinhoso.
E todos os dias da minha vida durante a sétima série, eu fui constantemente lembrado dos meus defeitos, da minha solidão e da falta de amigos.
Todos os dias.
Com terror psicológico, com abusos diários, com xingamentos, e em geral com uma covardia ímpar por parte dos meus algozes, que eram três ou quatro, mas um em especial. Todos maiores e mais fortes do que eu. Nenhum sinal de pena, nenhum sinal de remorso, ou de compaixão.
Não sou capaz de reproduzir o discurso deles aqui, de tão imoral, baixo e violento.
Eu chorava em segredo todos os dias.
Chorava porque tinha medo do que poderiam fazer comigo e pela certeza da impunidade que os acompanhava.
Então eu aguentei calado. Na verdade, eu tentava ser agradável com essas pessoas, ajudá-los quando necessitavam, oferecer uma mão nas matérias em que eu ia bem. Eu achava que poderia desconstruir o bullying, caso provasse minha utilidade, ou minha camaradagem. Eu nutria essa esperança em vão. Evidentemente, eles apenas se aproveitavam brevemente da minha ajuda enquanto ela os beneficiava, antes que voltassem ao massacre.
Eu chegava em casa e me isolava. Passava horas no computador jogando Counter-Strike. Os únicos amigos que eu tinha aos 13 anos estavam on-line em outras partes do país.
E eu tive sorte, essa é a verdade. Sim, tem uma questão da minha própria personalidade: razoável, ponderada, pouco belicista. Mas eu fui afortunado porque não estive exposto a nenhuma influência ruim, ninguém que me convencesse a fazer o mal. Um menino de 13 anos que se sente abandonado é altamente influenciável, ele precisa se sentir querido, achar que faz parte de algo.
Hoje a situação na internet é muito mais perigosa que na minha época. Uma máquina de moer sentimentos e transformar crianças marginalizadas em pessoas perigosas, misóginas, sociopatas, assassinas em série.
Neste campo, eu tive sorte.
A injustificável maldade dos meus colegas de classe não se dissipava, e eu ia acumulando essa dor dentro de mim todos os dias. Até que um dia, em casa, após ser pressionado pela minha mãe – acho que por conta da minha queda de performance nas aulas, refletida no boletim -, eu explodi.
Eu contei tudo.
Avisada, a coordenação entrou em tom de repressão nas salas de aula, e a situação se amenizou por uma, talvez duas semanas. Mas depois voltou. E eu precisei lidar com isso até o final da sétima série.
Na oitava, o pior dos babacas saiu de lá. E depois, perto dos 16 anos, eu já havia mudado, atravessado a puberdade e encontrado minha turma de amigos fora da escola, muitos dos quais me acompanham até hoje.
Eu olho para trás e penso em como eu gostaria de ter me comportado de outra maneira diante daquela situação. Ter me imposto, batido de frente, mostrado agressividade.
Mas não foi o caso. Eu ia como uma ovelha para o abate todos os dias. Rezando para que aquele dia fosse o último, que meu sofrimento acabasse. Eu perguntava aos céus por que, entre todas as pessoas, eu que precisava passar por aquela penitência.
Hoje não tenho mais raiva deles. Mas tenho curiosidade para entender o motivo do ódio que nutriam por mim. Porque não pode ser explicado de outra forma. Era ódio e, ao meu ver, injustificável.
Também não sou hipócrita a ponto de dizer que espero que eles estejam felizes, que tenham aprendido com a vida, e que está tudo no passado. Não. Deles não quero e nem espero nada.
Eu herdei algumas características desse período. Alguma boas, outras más. Por exemplo, eu não me calo mais quando estou incomodado, e bati de frente quando me senti desrespeitado em diversas ocasiões, tenho uma tendência a proteger pessoas quando acho que são tratadas injustamente.
Por outro lado, há um senso de autossabotagem, desconfiança nas pessoas e necessidade de aprovação externa que me acompanham até hoje – e acredito que estão de alguma forma ligados direta ou indiretamente a esse trauma.
Apesar dos pesares, gosto de acreditar que me transformei em um ser humano decente.
A série Adolescência trouxe à superfície uma série de questões que hibernavam em mim. E sabe o que é pior? Não acredito que exista remédio para o bullying, ou forma de contenção.
As escolas continuarão a desenvolver palestras e seminários, mas nunca vão cortar o mal pela raíz. Sendo sincero, não sei nem quais mecanismos poderiam utilizar para isso. Seja por questão pedagógica ou financeira, a intervenção vai apenas até a página dois.
Professores não têm controle total sobre a ação dos alunos, e também não se pode exigir que a pobre Dona Rosângela, professora de português de 58 anos, possa ter qualquer tipo de capacidade em amenizar uma situação dessas.
A formação do indivíduo parte de casa. Não é papel da escola, mas os pais podem se esforçar em proteger e educar os filhos, e não cometer nenhum erro proposital. Só que a influência deles não alcança todos os campos. Crianças e adolescentes, como já disse antes, são particularmente cruéis. Criam as próprias castas e mecanismos de poder.
Não sei muito bem como encerrar o texto.
Sinto que apenas vomitei verborragicamente sentimentos reprimidos no meu peito. Acho que exigiu certa coragem em expôr um evento do qual eu gostaria de não ter lembrança alguma.
Enfim, se você leu o relato inteiro, eu só gostaria de agradecê-lo pelo ombro amigo.
Para fechar com um grau de positividade, é bom lembrar que por pior que a situação seja, tudo sempre passa.
E pode não parecer na hora, mas a experiência nos fortalece para o futuro.
Olhem por seus filhos, amigos e pessoas queridas sempre.
Eu admiro a paixão da torcida argentina pela seleção de futebol do país. É um sentimento arraigado, forte, pungente, do qual não sonhamos em passar perto enquanto acompanhamos a Canarinho. Não se trata de vira-latismo. É a simples constatação do óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues.
O escrete argentino tem uma ligação especial com as arquibancadas do Monumental, de uma forma que nunca almejamos no Brasil. Uma paixão sofredora e irrefreável, que cega e faz pulsar o coração. Um time que sente o calor da arquibancada e o justifica em campo, com sangue, suor e lágrimas.
Por aqui, um tímido “eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” – talvez o pior cântico de torcida já inventado até o presente momento – jamais terá a força da hinchada Albiceleste. Somos torcedores de clubes, não da Seleção.
Na prévia da partida, brincou-se com dar porrada nos argentinos. E veja bem, com o futebolzinho apresentado pela Seleção de Dorival Júnior, eu já me sentia atormentado pelas declarações do atleta Raphinha.
Do outro lado estava a atual campeã do mundo, entrosada, embalada, já classificada e com o poder místico do Monumental como décimo segundo jogador.
O realismo gritava nos meus ouvidos, acusando que, potencialmente, seríamos nós os sacos de pancada.
Mas eu errei.
Não teve agressão na bonita noite de Buenos Aires.
Houve um baile. Ou um tango, que talvez seja o mais culturalmente correto.
Nem mesmo Carlos Gardel compôs linhas tão melodiosas quanto a linha de passe da equipe azul e branca em 25 de março de 2025.
Uma elegância imponente, sedutora, envolvente.
Desiludida pela atuação brasileira, minha mulher recolheu-se ao quarto no intervalo e, como é de praxe das mulheres que amam, perguntou:
“Não prefere deixar isso para lá e ir deitar comigo”.
Ora, meu amor… E perder o espetáculo?
No fim, 4 a 1 para eles, gritos de olé, e um estádio em êxtase.
Fui dormir chateado? De forma alguma. Além do teatro, a verdade é que ficou barato.
Ao som de Gardel, a torcida portenha fez um minuto de silêncio pela Verde e Amarela.
Eu rompi parcialmente um ligamento no tornozelo direito.
Sim, eu sei que pode não parecer a informação mais relevante do mundo, mas justifica a minha ausência nas páginas deste blog.
Você pode pensar rapidamente: mas Daniel, por que uma lesãozinha no pé te privou de escrever sentado, em um teclado, com os dedos e com a mente que seguem intocados pelo exame de imagem?
A resposta é que eu não sei direito. De verdade.
E talvez seja porque eu consegui uma desculpa para parar de fazer, para evitar isso aqui, porque eu tenho receio de fracassar. Porque eu tenho medo que não vá pra frente.
Porque eu sou um covarde.
E por eu ser um covarde, justamente, é que não vai pra frente.
Veja bem, é sim uma merda não conseguir pisar no chão, não poder praticar meus esportes favoritos, engordar, utilizar cigarro como ferramenta de controle de ansiedade.
Tudo isso é horroroso e sim, esses acontecimentos são consequência de um ligamento parcialmente rompido.
Só que o meu coitadismo, a minha falta de vontade de fazer as coisas e deixar de lado minhas iniciativas são sintomas que se escoram em uma mera inconveniência física.
Portanto, dizer que não escrevi porque meu pé estava doendo, como você bem apontou, não faz sentido.
E chega daquele papo de “e tá tudo bem”. “Tem dias que o seu máximo é o menor esforço possível”.
É um papo derrotista!
Não tá tudo bem. Precisa mudar! E vai.
Nem o ligamento teve competência para romper-se por completo.
Mas pode deixar… as palavras que eu reprimi estão afiadas, e loucas pra voltarem ao papel.
O livro A Visita Cruel do Tempo, de Jennifer Egan, me proporcionou um acontecimento único até aqui na minha vida.
Foi um dos livros que eu adicionei à lista de leituras desejadas para o ano – e isso pode não soar muito relevante, mas as publicações que adentraram esse hall foram devidamente pesquisadas a respeito. Leram-se sinopses e mais sinopses. Não sou o tipo de pessoa que adiciona um livro à estante sem nenhuma informação a respeito dele.
Tá, e por que essa informação é importante? Imagino que você esteja se perguntando…
Porque apesar de atravessar essa minuciosa triagem, ainda na metade do primeiro capítulo, A Visita Cruel do Tempo, começou a transmitir uma angústia que eu não conseguia explicar bem. Era familiar demais, quase como se eu já tivesse passado por aquilo antes. Um deja vu literário. Eu precisei de mais um capítulo para que a ficha caísse por completo:
Caramba, eu já li esse livro antes. Mas eu não me lembro.
Mesmo depois da pesquisa e das sinopses, eu não percebi. Seria uma leitura repetida. E quando dei por mim, a angústia crescia a cada página que eu virava. Eu conheço essas pessoas, apesar de não conhecê-las mais. E a memória não se restaurava, ou seja, eu tinha certeza absoluta que já havia passado por aquela história antes, mas não tinha ideia de qual seria o desfecho.
Devo confessar que isso impactou na minha boa vontade com o livro. Afinal, uma obra que eu não recordo de ler, nem mesmo sou capaz de lembrar do título na capa, invariavelmente só pode ter me proporcionado uma experiência apagável, indiferente, sem marcas.
E sabe de uma coisa? Que bom que eu continuei lendo. Porque foi uma lição de humildade.
Jennifer Egan vai e volta na cronologia dos personagens durante a obra, mas foi o capítulo 10 que me pegou de jeito. Até o décimo capítulo, sinto que imperava meu desprazer em reler algo varrido para as gavetas mais escusas da minha mente. Mas no capítulo 10, meus amigos. Ah, no capítulo 10…
Foi como se eu estivesse lendo pela primeira vez – não o livro, mas na vida. Porque uma coisa é avançar linhas em uma página, outra é sentir profundamente a dor de alguém. E eu senti a dor de Rob no décimo capítulo. O único que conta a história dele. E eu entendi Rob. E eu empatizei com Rob, apesar de não compartilhar dos mesmos problemas que ele.
Sabe, Rob me mostrou que mesmo um livro já lido, mesmo um esquecido, pode proporcionar algo belo.
Se o título é A Visita Cruel do Tempo, não há como não traçar um paralelo com ideais heraclitianos de homens e rios que nunca são os mesmos. Dez anos depois, um Daniel diferente pegou um livro que já lera, mas a experiência transformou o livro em algo novo.
Pelo menos do décimo capítulo em diante.
É difícil para mim atribuir uma nota justa ao livro. Ele mexeu com meus sentimentos positivamente e negativamente. Mas se você quiser uma visão menos enviesada que a minha, talvez você deva considerar a dos jurados do Prêmio Pullitzer – que premiaram a obra em 2011.
É sobre rock’n’roll, sobre definhar enquanto humanos, mas também sobre redenções. Talvez principalmente sobre redenções. Porque um momento da nossa existência não nos define, tampouco escolhas erradas, ou a profissão que escolhemos, os parceiros com quem vivemos, nada disso. O tempo é cruel e ele é o que nos transforma: e só pára quando o último ponteiro passa da meia-noite.
Há livros tristes, livros sobre abandono, livros que te fazem chorar, e que mostram a complexidade do ser humano – e de tudo que se convém chamar de relacionamento. Pequena coreografia do Adeus, de Aline Bei, engloba todas essas características.
Júlia teve uma infância conturbada. Mãe violenta, pai omisso. Cresceu em um ambiente inseguro, carente de afeto e cumplicidade. Autoestima no chão, raiva que a faz explodir em certos momentos, uma batalha constante contra o abismo da solidão – que parece um bom lugar, quando comparado ao lugar comum dos abusos físicos e psicológicos.
É um livro que escancara: há pessoas que simplesmente não nasceram para procriar, que se enxergam incapazes de amar a prole, e se colocam em constante competição com os rebentos.
Ficamos assim com uma genitora narcisista a desenvolver traços psicóticos, e um pai que procura em outros muitos braços seus abraços, que pouco significam. Na orelha do livro pode se ler: “a mãe não suporta a ideia de ter sido abandonada pelo marido, enquanto o pai não suporta a ideia de ter sido casado”. Eu não poderia definir melhor.
E no meio de um injusto turbilhão de sentimentos está a pequena Júlia, que apesar dos pesares, cresce para tornar-se uma adulta funcional e sonhadora. Infelizmente, o suporte nunca vem de casa, e ela precisa buscar fora do seio familiar personagens que a ajudam a se guiar por este mundo de mágoas.
Aline Bei é autora de mão cheia. Capaz de traduzir dor e sofrimento, sem perder a leveza de suas linhas. No entanto, sinto que existe uma predisposição gigantesca a tudo poetizar, contudo, nem tudo é poético. Isso se reflete no texto.
Porque você que ainda não leu Pequena Coreografia do ADEUS, não sabe. Mas o texto é todo disposto assim, em versos sem métrica. Para enfatizar a poesia disforme da história toda. E eu entendo. Juro. É o estilo da autora. A forma de colocar a dor no papel. Mas Em um ou outro momento Me tirou A paciência.
Mesmo com a superpoetização, não se engane. É um livro que vale a pena ser lido. Mas vá preparado. É triste do início ao fim.
A louça estava suja na pia e não iria se lavar sozinha.
Houve uma época na minha vida na qual eu detestava essa atividade, do fundo do meu âmago. Aí, sei lá, acho que a vida adulta só acontece, e você acaba superando o ódio na insistência.
Nada como um podcast para ver os pratos diminuírem exponencialmente na pia. Eu posso jurar que ouço centenas de podcasts diferentes, mas em janeiro, parece que todos eles resolveram sair de férias juntos.
Eu não podia tirar férias da louça suja.
Então coloquei as músicas que eu curti no Spotify para tocar no modo aleatório. A chance de tocar MPB é grande, já que a maioria do meu repertório musical está concentrado nas brasilidades.
Tocou Gil. Tocou Gal. Mas faltaram as outras vogais.
Aí entrou aquela voz que é impossível de não reconhecer. Acho que mesmo se eu ficar surdo, ainda será possível distinguir a voz de Bethânia das demais.
“Ai, ai, saudade Saudade dela Ela se foi, saudade Fiquei sem ela, oh”.
Nos últimos cinco anos, sempre que essa música toca, eu derramo algumas lágrimas. Ela me lembra da minha avó Malvina. Não temos nenhuma história conjunta que envolva essa canção específica, ou a filha da Dona Canô.
Mas quando minha avó morreu, no começo da pandemia, eu passei a escutar a música repetidamente. E passou a fazer parte de um elo póstumo entre avó e neto.
No começo, o choro era de soluçar. Com o tempo e os anos transcorridos, transformou-se em uma ou duas lágrimas que teimavam em escorrer tristes pelo meu rosto.
Hoje foi diferente. Com uma vasilha suja de iogurte na mão esquerda e a esponja coberta de detergente na direita, os versos na voz de Bethânia não provocaram as corriqueiras lágrimas.
Parei por um momento, refleti. Abri um sorriso no canto da boca. Pela primeira vez em cinco anos, Saudade Dela não soou triste – foi nostalgia.
Uma lembrança gostosa, um menino indo com a avó até a aula de teatro.
A vida te ensina que é possível amar até lavando a louça.