A Pediatra, de Andrea Del Fuego


Cecília é uma pediatra que odeia crianças

O livro A Pediatra, de Andrea del Fuego me foi dicotômico.

Por um lado, o estilo narrativo da autora, verborrágico, sem pausas ou respiros, me agradou profundamente. Quando dei por mim, estava a dançar com as palavras agitadamente, nada parecido com a sutileza de uma valsa – mais para aquele forró suado, com testas pingando, corpos encharcados, e sandálias arrastadas que levantam poeira vermelha. Dois seres melados e grudados, com os pés mutuamente pisados – eu e as palavras de del Fuego.

Posta de lado toda a paixão fogosa do léxico, a história em si não me comoveu. Assim como a personagem principal. Não mesmo. Se a narrativa é forró improvisado, o enredo é um bolero chato e previsível.

A protagonista é Cecília, uma pediatra que odeia crianças, ou seres humanos em geral, à exceção do pai (alô, Freud!). Foi difícil para mim estabelecer qualquer tipo de vínculo com a doutora, pois a amargura dela me soava apenas desinteressante. Ela tem vocação para sociopata e flerta com ser vilã, ou anti-heroína, mas lhe falta o carisma necessário para ocupar tais posições.

Cecília acaba de atravessar um divórcio e vive um caso com o executivo Celso, outro água de salsicha, casado. A pediatra participa da equipe médica que traz ao mundo o primeiro filho de Celso, Bruninho. Posteriormente, o “romance” entre eles avança até que o primogênito é utilizado como bode expiatório para os encontros do casal.

A pediatra desenvolve uma obsessão doentia, uma psicose envolvendo Bruninho, e passa a tratar o filho do “namorado” como se fosse seu. Já voltamos a isso.

Pois vamos pausar um momento para falar sobre a trama secundária do livro, que ao meu ver é muito mais interessante do que a história principal. Ela envolve a empregada de Cecília, Deise, e o romance proibido com Robson – não entro em mais detalhes para evitar spoilers, mas o que posso dizer é que é uma narrativa muito mais envolvente e sedutiva do que a de Cecília. Infelizmente, a autora parece perder a vontade de contar o desfecho do caso e deixa o plot completamente em aberto. Uma pena.

Sobre o final do livro, se você não quiser spoilers, pule as próximas linhas…

(Começo do Spoiler)

Conforme a história Cecília x Celso x Bruninho avança, ainda na metade do livro, eu só conseguia enxergar dois finais possíveis para consagrar a tragédia que se desenha:

a) Bruninho morre;
b) Cecília rapta Bruninho.

Batata.

Del Fuego quase mata a criança em um surto de cetoacidose diabética, para impotência de Cecília. No entanto, Bruninho sobrevive, para ser raptado pela pediatra no fim do livro.

(Fim do Spoiler)

Em resumo: a estética de Del Fuego me agradou e ficaria feliz em ler outros títulos da autora. Só não precisa convidar a pediatra Cecília…

2.5 de 5.

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